Em 21 de outubro de 2026, o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/APHIS) confirmou a primeira detecção da mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax, chamada em inglês de New World screwworm) em um animal silvestre no território americano. Segundo o comunicado oficial, foi um alce (elk) abatido por um caçador numa propriedade de caça no condado de Pecos, no oeste do Texas. A Comissão de Saúde Animal do Texas (TAHC) modificou a zona infestada nos dias seguintes, e o USDA e o órgão estadual de parques e vida selvagem ampliaram a vigilância em fauna na região. O surto atual no Texas começou com um caso índice confirmado em 3 de junho de 2026, num bezerro do condado de Zavala; até a última atualização da TAHC, havia 49 propriedades com detecção confirmada em 19 condados.
Um esclarecimento de nome, porque ele confunde: a praga é a mesma que o produtor brasileiro conhece como bicheira, a miíase causada pelas larvas dessa mosca, que se alimentam de tecido vivo em feridas abertas.
Por que importa para o Brasil
O salto do rebanho para a fauna silvestre muda a natureza do problema. Enquanto a praga está no gado, existem ferramentas conhecidas: inspeção de animais, tratamento de feridas, controle de trânsito, certificado de movimentação. A TAHC, por exemplo, exige que animais de sangue quente só deixem a zona infestada com autorização prévia e inspeção. Mas não há como inspecionar um alce solto. Quando o parasita encontra hospedeiros fora do manejo, a erradicação fica mais difícil e mais lenta. O próprio comunicado do USDA se volta aos caçadores, pedindo que observem larvas visíveis, feridas abertas ou com secreção, odor fétido e animais letárgicos ou isolados.
Para o Brasil, há três leituras. A primeira é sanitária: aqui a bicheira não é emergência, é rotina. Uma revisão publicada em 2019 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, com participação da Embrapa, reuniu registros da espécie em 208 municípios de 26 estados, em todos os grandes biomas, com casos em bovinos, pequenos animais, pessoas e também em fauna silvestre, como lobo-guará e gambá. Os autores avaliam que os casos em animais silvestres são provavelmente subnotificados. O que os americanos descobrem agora no Texas é a realidade de sempre do Cerrado e da Caatinga.
A segunda leitura é histórica e técnica: a mesma revisão lembra que a técnica do inseto estéril, a liberação em massa de machos esterilizados, erradicou a mosca da América do Norte e da América Central a partir de 1957, e que uma planta de biossegurança é mantida no Panamá. O retorno da praga aos Estados Unidos mostra que uma barreira biológica construída ao longo de décadas pode ser rompida, e que a vigilância precisa ser permanente. A revisão não registra um programa de inseto estéril em operação no Brasil.
A terceira é comercial: as restrições à importação de gado mexicano pelos Estados Unidos seguem em reabertura gradual. Pelo cronograma do APHIS, Douglas (Arizona) reabriu em 24 de agosto, Santa Teresa (Novo México) em 24 de setembro, Columbus (Novo México) em 26 de outubro, e Nogales (Arizona) está prevista para 30 de novembro de 2026. Efeitos sobre preços e fluxos internacionais de carne bovina são possíveis, mas este texto não encontrou dado oficial que permita quantificá-los; qualquer projeção nesse sentido ainda é especulação.
O que observar daqui para frente
- Se novas detecções em fauna silvestre aparecem em outros condados do Texas ou em outros estados, o que indicaria disseminação para além do foco inicial.
- Mudanças na zona infestada e nas regras de trânsito animal da TAHC, publicadas como ordens executivas quase diárias.
- A manutenção ou o adiamento do cronograma de reabertura dos portos de fronteira para gado mexicano.
- No Brasil, a oportunidade de olhar para dentro: a bicheira é tão comum que raramente vira dado. Notificação, registro e pesquisa sobre a praga, inclusive em animais silvestres, ajudam a dimensionar um problema que convive com o rebanho há gerações.
Quem conhece a bicheira de perto sabe: o problema não respeita cerca. A diferença é que, agora, os Estados Unidos também estão aprendendo isso.
Referências
- USDA Confirms First Detection of New World Screwworm in U.S. Wildlife (USDA/APHIS) — https://www.aphis.usda.gov/news/agency-announcements/usda-confirms-first-detection-new-world-screwworm-us-wildlife
- New World Screwworm: Current Status (USDA/APHIS, atualizado em 23/10/2026) — https://www.aphis.usda.gov/animals/animal-health/livestock-and-poultry-disease/stop-screwworm/current-status
- New World Screwworm — Livestock Resources (Texas Animal Health Commission) — https://www.tahc.texas.gov/emergency/nws.html
- Costa-Júnior, L. M. et al. (2019). A review on the occurrence of Cochliomyia hominivorax (Diptera: Calliphoridae) in Brazil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, 28(4), 548–562 — https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1119721/1/AreviewontheoccurrenceofCochliomyia.pdf
Leia também no Além do Carimbo: “A fronteira reabre com chip na orelha: o que a bicheira entre México e EUA ensina sobre rastreabilidade”.





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