Depurado não quer dizer sem vírus: o que um ano de testes em mexilhões do varejo ensina à malacocultura brasileira

O rótulo diz “depurado”. O mexilhão está fresco, bem embalado, comprado num supermercado de uma cidade europeia com controle sanitário rigoroso. Ainda assim, pode carregar material genético de um dos vírus que mais causam gastroenterite no mundo? Um estudo publicado em setembro de 2026, com participação de virologistas da Universidade Federal de Santa Catarina, foi atrás dessa resposta durante um ano inteiro. O resultado não autoriza pânico, mas desmonta uma ideia confortável: a de que molusco depurado é molusco livre de vírus.

O que a ciência encontrou

O trabalho foi publicado na revista Microorganisms por um grupo binacional: pesquisadores da Universidade de Burgos e da Universidade de Córdoba, na Espanha, e do Laboratório de Virologia Aplicada da UFSC, em Florianópolis. A primeira autora, Mariana Alves Elois, está vinculada às duas instituições.

A pergunta era direta: com que frequência mexilhões vendidos no varejo trazem vírus entéricos humanos? Os pesquisadores compraram, todo mês, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, mexilhões da espécie Mytilus galloprovincialis cultivados na Galícia e vendidos em lojas de Burgos. Todos os produtos estavam rotulados como depurados. Foram 78 unidades comerciais, seis por coleta, de marcas e lotes diferentes. De cada unidade, os pesquisadores retiraram o tecido digestivo de quatro a cinco mexilhões e formaram uma amostra composta de 2 gramas, o chamado pool.

Nesse material, procuraram quatro alvos: o vírus da hepatite A, o vírus da hepatite E e os dois genogrupos de norovírus que mais infectam pessoas, GI e GII. A técnica foi a RT-qPCR, que detecta e quantifica o RNA viral. O protocolo seguiu a abordagem geral da norma ISO 15216-1, com um vírus de controle (mengovírus) adicionado para conferir se a extração funcionou.

Os números-chave:

  • Norovírus GII apareceu em 5 dos 78 pools, ou 6,4% (intervalo de confiança de 95%: 2,1% a 14,3%).
  • Hepatite A, hepatite E e norovírus GI não foram detectados em nenhuma amostra.
  • As cargas nos positivos foram baixas: entre 48,7 e 372,2 cópias de genoma por grama, com mediana de 120 cópias por grama.
  • Os positivos se concentraram em abril, maio e novembro de 2025. A diferença entre estações não foi estatisticamente significativa (p = 0,0648), nem a diferença entre tipos de embalagem (p = 0,5471).

Os limites do estudo

Este é o parágrafo que nenhum leitor deveria pular. A RT-qPCR detecta RNA viral, mas não diz se o vírus estava vivo e capaz de infectar. Os próprios autores alertam que a detecção em nível baixo não deve ser lida nem como risco desprezível nem como prova de dose infectante. Com apenas cinco positivos, as análises por estação e embalagem são exploratórias e têm pouco poder estatístico; a ausência de significância não prova ausência de padrão. Os pesquisadores não tiveram acesso à área de cultivo nem aos detalhes da depuração de cada lote, e não testaram os mesmos mexilhões antes e depois de depurar, então o estudo não mede a eficácia da depuração. O pool pode diluir contaminações pequenas, e a prevalência por pool não se compara diretamente à prevalência por mexilhão. Por fim, é uma cidade, uma espécie e uma região de origem, na Espanha.

O estudo não diz que mexilhão depurado causa doença. Diz que a depuração, sozinha, não garante a ausência de material genético de norovírus no produto que chega ao consumidor.

O que já se sabia

O resultado conversa com o que a literatura vem mostrando há anos. Moluscos bivalves filtram grandes volumes de água e concentram o que há nela, inclusive vírus de origem fecal humana. No caso do norovírus, há um agravante descrito pelos autores: a ligação do vírus a moléculas semelhantes aos antígenos de grupos sanguíneos presentes no tecido do molusco, o que pode tornar a eliminação durante a depuração mais lenta do que a de bactérias.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) já havia discutido, em parecer científico de 2012, métodos, limites e opções de controle para norovírus em ostras. Mesmo assim, o arcabouço europeu atual, apoiado nos Regulamentos 852/2004, 853/2004 e 2073/2005, segue baseado sobretudo em indicadores bacterianos fecais, como E. coli, além de Salmonella e biotoxinas marinhas. Não há, segundo os autores, critério legal rotineiro com limite quantitativo de vírus em bivalves.

No Brasil, a lógica é semelhante. O Programa Nacional de Controle Higiênico-Sanitário de Moluscos Bivalves (PNCMB), instituído pela Instrução Normativa Interministerial nº 7/2012, classifica as áreas de cultivo com base em E. coli no tecido dos moluscos e no monitoramento de biotoxinas e de microalgas tóxicas. Áreas com E. coli abaixo de 230 NMP/100 g são liberadas; entre 230 e 46.000, liberadas sob condição, com exigência de depuração ou tratamento térmico; acima disso, suspensas. O manual do programa não menciona vírus.

Ou seja: o estudo espanhol confirma uma lacuna conhecida, em vez de inaugurar uma nova. A E. coli é um bom indicador de contaminação fecal recente, mas não é um espelho perfeito do norovírus, que pode persistir no molusco mesmo quando o indicador bacteriano já caiu.

O que isso pode mudar na prática

Para a malacocultura brasileira, especialmente a catarinense, que produz ostras e mexilhões e já convive com interdições por biotoxinas e contaminação, a mensagem é de atenção, não de alarme. Um único estudo, em outro país, com cinco positivos e sem prova de infectividade, não sustenta recomendação sanitária nova. Mas ele reforça três pontos práticos.

Primeiro: a qualidade da água na área de cultivo continua sendo a principal barreira. Depuração é etapa complementar, não remédio para área contaminada. Segundo: investigações de surtos de gastroenterite associados a moluscos precisam incluir pesquisa de norovírus, já que o indicador bacteriano pode estar dentro do limite. Terceiro: o Brasil tem competência instalada para gerar dados próprios, como mostra a participação da UFSC neste trabalho. Um levantamento nacional de vírus entéricos em bivalves comercializados, com método padronizado, preencheria uma lacuna real.

Há também uma lição de método para quem fiscaliza e para quem interpreta laudos. Um resultado positivo de RT-qPCR para norovírus não equivale, sozinho, a um produto comprovadamente infectante; um resultado negativo também não garante ausência de risco, porque depende do limite de detecção, da eficiência da extração e da forma de amostragem. Neste estudo, por exemplo, a recuperação média do vírus de controle foi de 42,9%, o que significa que parte do material viral se perde no caminho. Ler o laudo exige saber o que o método consegue e o que não consegue enxergar.

Para o consumidor, a orientação já conhecida continua valendo: o cozimento adequado é a medida que reduz o risco de vírus em moluscos; consumir ostras e mexilhões crus implica um risco que a depuração não elimina por completo.

Conclusão

O mexilhão do estudo passou por todas as etapas que a legislação exige e chegou ao varejo dentro das regras. Ainda assim, uma pequena parte carregava sinal de norovírus. Isso não é falha de um produtor. É o limite de um sistema que mede bactérias para inferir vírus. O perigo nem sempre tem cheiro, cor ou sabor, e nem sempre aparece no indicador que escolhemos para procurá-lo.

Referências

Leia também no Além do Carimbo: “Ostras interditadas em Guaratuba: quando o perigo não tem cheiro nem aparência”.

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