Menos papel, mais foco no risco: a Nova Zelândia reescreve o plano de segurança dos alimentos dos pequenos negócios

Um café de duas mesas que só reaquece salgados e uma cozinha industrial que produz centenas de refeições por dia devem seguir o mesmo plano de segurança dos alimentos? Na Nova Zelândia, em boa parte dos casos, seguem. O governo do país decidiu mudar isso — e abriu, em 9 de outubro, uma consulta pública para reescrever o modelo de plano usado pela maioria dos pequenos negócios de alimentação.

O fato

Segundo comunicado do ministro da Segurança dos Alimentos, Andrew Hoggard, a consulta trata da atualização do Simply Safe & Suitable, o modelo pré-aprovado de plano de controle de alimentos, uma espécie de roteiro em linguagem simples com os passos que o negócio deve seguir e os registros que deve manter. A consulta fica aberta até 15 de novembro de 2026. As seis mudanças propostas são: menos testes e registros; um modelo modular, que o negócio adapta à sua operação; menos repetição; ligação mais clara entre perigos, monitoramento, registros e ações corretivas; reflexo mais claro das responsabilidades legais do negócio; e linguagem mais simples.

A consulta faz parte de um pacote maior. Em setembro, o governo aceitou sete das oito recomendações sobre segurança dos alimentos de uma revisão do setor de hospitalidade conduzida pelo Ministério da Regulação. Segundo a imprensa neozelandesa, a ideia central é regular pelo risco do alimento, e não pelo tipo de negócio: cafés que apenas reaquecem e assam poderiam migrar para categorias mais leves, enquanto grandes cozinhas de catering tenderiam a permanecer nas mais exigentes. Negócios com bom histórico poderiam passar até dois anos entre verificações, e a verificação de um food truck feita por um conselho municipal passaria a valer nos demais. O cronograma anunciado prevê as novas categorias e o plano simplificado até meados de 2027 e o fim das renovações periódicas de registro até o fim de 2027 — esta última depende de mudança na lei.

Por que importa para o Brasil

O movimento neozelandês vai na contramão da manchete habitual, em que segurança dos alimentos é sinônimo de mais regra. Aqui, a aposta é em proporcionalidade: concentrar esforço onde o risco é maior e reduzir papel onde ele é baixo. A própria revisão criticou verificações que olhavam mais para registros do que para as práticas na cozinha.

O Brasil conhece esse debate. A RDC Anvisa nº 153/2017 classifica as atividades sujeitas à vigilância sanitária por grau de risco, e a Lei nº 13.874/2019, a Lei da Liberdade Econômica, abriu caminho para dispensar atos públicos de liberação em atividades de baixo risco. Ao mesmo tempo, a RDC nº 216/2004, que estabelece as boas práticas para serviços de alimentação, exige manual de boas práticas e procedimentos operacionais padronizados de forma relativamente uniforme. A pergunta que a Nova Zelândia coloca é útil para nós: o que, nesses documentos, protege de fato o consumidor, e o que virou burocracia que ninguém lê?

O que poucos percebem é que simplificar não é o mesmo que afrouxar. Um plano modular, que liga cada perigo ao seu controle e à sua ação corretiva, pode ser mais exigente no essencial do que um formulário longo preenchido por obrigação. A diferença está em quem decide o que é essencial — e com base em que evidência.

O que observar daqui para frente

  • O texto final do novo modelo, após 15 de novembro, e quais registros sairão de fato da rotina dos negócios.
  • Os critérios usados para enquadrar cada negócio por risco do alimento e para definir o “bom histórico” que permite verificações mais espaçadas.
  • Os indicadores que o país usará para medir se a simplificação manteve, ou melhorou, a proteção ao consumidor.

Regulação proporcional ao risco só funciona quando o risco é medido. Esse é o ponto que vale acompanhar.

Referências

Leia também no Além do Carimbo: “Fiscais de menos, fila demais: o que a espera por inspeção no Reino Unido ensina sobre algoritmos que decidem onde olhar” e “O fim da bisnaga é só a ponta: o que a nova norma paulista de boas práticas muda — e o que ela revela sobre o risco no balcão”.

Comentários

Deixe um comentário

Veja também

Ver tudo [ -> ]

Descubra mais sobre ALÉM DO CARIMBO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo