Toda ração tinha micotoxina — e o leite está “dentro da lei”: o que a tese da USP mostra, e o que a lei brasileira ainda não mede

Imagine o cocho de uma fazenda leiteira em Minas Gerais. Silagem de milho, concentrado, alguma mistura comprada. Nada ali parece estragado: não há cheiro forte, não há mofo visível. Ainda assim, se essa fazenda estivesse entre as cem visitadas por uma pesquisa da Universidade de São Paulo, a ração quase certamente carregaria pelo menos uma micotoxina — substâncias tóxicas produzidas por fungos que não se veem, não se cheiram e não desaparecem com a aparência de alimento bom. O perigo nem sempre tem cheiro, cor ou sabor.

A pergunta que interessa ao consumidor é simples: se está na ração, chega ao leite? E, se chega, isso é um problema? A resposta da pesquisa é tranquilizadora em parte — e revela, no caminho, uma lacuna que quase ninguém comenta.

O que a ciência encontrou

O trabalho é a tese de doutorado da médica-veterinária Aline Moreira Borowsky, no Programa de Pós-graduação em Ciência Animal e Pastagens da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), com coordenação do professor Carlos Humberto Corassin, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA/USP), e financiamento de Fapesp, CNPq e Capes. Os resultados foram divulgados pela Esalq em abril de 2025 e pelo Jornal da USP em maio do mesmo ano.

O desenho é observacional: os pesquisadores coletaram amostras da dieta completa das vacas e do leite do tanque de 100 propriedades do Sudeste — 75 em Minas Gerais, 18 em São Paulo, 3 no Rio de Janeiro e 3 no Espírito Santo — e procuraram, em laboratório, várias micotoxinas ao mesmo tempo (a chamada análise multi-micotoxinas).

Na dieta, o retrato é contundente:

  • 100% das amostras tinham ao menos uma micotoxina;
  • fumonisinas apareceram em todas as amostras;
  • 86% tinham de duas a quatro micotoxinas simultaneamente;
  • aflatoxinas foram encontradas em apenas uma amostra.

No leite, as frequências de detecção foram: fumonisinas em 57% das amostras, alfa e beta-zearalenona em 49% cada, desoxinivalenol (DON) em 42% e aflatoxina M1 em 14%. Ocratoxina A e DOM-1 (um metabólito do DON) não foram detectadas. Segundo a divulgação institucional, os níveis encontrados no leite foram baixos e não superaram os limites permitidos pela legislação brasileira; os autores concluem que o leite não representa risco para o consumo humano.

Para os animais, a leitura é outra. Os pesquisadores destacam que a presença das micotoxinas na dieta representa risco à saúde do rebanho: fumonisinas, zearalenona, DON e aflatoxinas estão associadas, conforme a dose, a queda de consumo e de produção, problemas reprodutivos, lesões hepáticas e renais e maior susceptibilidade a doenças.

Os limites do estudo

Antes de qualquer conclusão, quatro cuidados. Primeiro: é uma tese de doutorado, divulgada por canais institucionais, mas, até onde foi possível verificar, ainda não publicada em periódico com revisão por pares. É um achado robusto em escala, mas preliminar como evidência publicada. Segundo: a amostragem é regional e desigual — três de cada quatro fazendas são mineiras, e Rio de Janeiro e Espírito Santo contribuíram com três propriedades cada. Não se deve estender o retrato, automaticamente, ao Sul, ao Centro-Oeste ou ao Nordeste. Terceiro: as divulgações informam frequências de detecção, não as concentrações medidas. “Detectado” não é sinônimo de “acima do limite” nem de “perigoso”; é apenas presença acima do que o método consegue enxergar. Quarto: o leite analisado veio do tanque, uma mistura de vários animais, e não de vacas individuais.

Há ainda uma lacuna científica que os próprios autores reconhecem: os efeitos aditivos e sinérgicos de várias micotoxinas presentes ao mesmo tempo ainda não são bem conhecidos. Quase toda a avaliação de risco foi construída toxina por toxina.

“Dentro da lei” — mas de qual lei?

Aqui está o ponto que merece atenção do leitor técnico. No Brasil, os limites máximos tolerados de contaminantes em alimentos estão na RDC Anvisa nº 722/2022 e na Instrução Normativa nº 160/2022, que a acompanha. Para leite e derivados, a única micotoxina com limite fixado é a aflatoxina M1: 0,5 µg/kg no leite fluido, 5 µg/kg no leite em pó e 2,5 µg/kg em queijos. Fumonisinas, zearalenona, DON e ocratoxina A têm limites na norma para cereais, farinhas, café, cacau e outros alimentos, mas não para o leite.

Isso significa que a afirmação “dentro do limite legal” tem um alcance preciso: ela é plenamente aplicável à aflatoxina M1. Para as fumonisinas, que apareceram em 57% das amostras de leite, ou para a zearalenona, não há limite brasileiro específico no leite a ser respeitado ou ultrapassado. O estudo não diz que essas toxinas estão em nível perigoso. Diz que elas estão presentes com frequência — e a regulação, por enquanto, não tem uma régua para medi-las nesse alimento.

Isso não é um erro da pesquisa nem, necessariamente, uma falha da norma. Limites são definidos a partir de avaliação de risco: quanto da toxina passa para o alimento, quanto as pessoas consomem e a partir de que dose há efeito. Para a aflatoxina M1, a base é sólida e internacional — o Codex Alimentarius adota 0,5 µg/kg para o leite, e a União Europeia, mais restritiva, 0,050 µg/kg. Para as demais, a lógica adotada no mundo tem sido controlar a toxina antes, na ração. A União Europeia, por exemplo, publicou já em 2006 uma Recomendação com valores de orientação para DON, zearalenona, ocratoxina A e fumonisinas em produtos destinados à alimentação animal.

O que isso pode mudar na prática

Para o consumidor, a mensagem é de serenidade bem informada: os dados divulgados não indicam motivo para deixar de tomar leite, e a toxina de maior preocupação para a saúde humana, a aflatoxina M1, foi encontrada em poucas amostras e abaixo do limite. Não há base para manchete de “leite contaminado”.

Para o produtor, o RT da fazenda e o nutricionista animal, a mensagem é de prevenção. Se toda ração analisada tinha micotoxina, monitorar a dieta deixa de ser exagero e passa a ser rotina de boas práticas: análise periódica dos ingredientes e da dieta total, atenção à colheita, à secagem e ao armazenamento de grãos e silagem, e uso criterioso de aditivos antimicotoxinas, como recomendam os pesquisadores. É uma decisão econômica, além de sanitária — micotoxina na dieta custa leite, reprodução e saúde do rebanho.

Para o laticínio e a fiscalização, o achado reforça um princípio: o leite seguro começa no cocho. A análise multi-micotoxinas no leite, sugerem os autores, pode servir também como ferramenta para monitorar micotoxicoses no rebanho e avaliar risco ao consumidor.

E para a ciência e a regulação brasileiras, fica a lacuna: precisamos de dados de concentração, de outras regiões, publicados com revisão por pares, e de estudos sobre o efeito combinado das toxinas. Só com essa base é possível decidir, com evidência, se o leite precisa de novos limites ou se o controle na ração é suficiente.

Conclusão

A tese da USP oferece um retrato raro, em escala, de um perigo invisível na base da cadeia do leite. Ela não autoriza alarme: o leite analisado não ultrapassou os limites que existem. Também não autoriza descaso: toda dieta tinha toxina, a maioria tinha mais de uma, e parte dessas substâncias não tem régua legal no leite. Contaminação na dieta, presença no leite e risco no prato são três coisas diferentes. Entender a distância entre elas é exatamente o que transforma uma notícia em proteção.

Referências

Leia também no Além do Carimbo: “‘O Brasil é o 3º do mundo em aflatoxina no leite’? Volume de pesquisa ou medida de risco”.

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