O mito
“Resistência a antibiótico é coisa de hospital. Quem tem que se preocupar é quem toma remédio à toa.” A frase é comum — na mesa do almoço, na sala de espera, até entre profissionais de saúde — e tem uma lógica aparente. Afinal, as histórias de “superbactérias” que chegam ao noticiário quase sempre começam numa UTI, e a recomendação mais conhecida é para o paciente: não interromper o tratamento, não se automedicar.
Por que tanta gente acredita nisso? Porque é a parte visível do problema. A infecção que não responde ao tratamento acontece num corpo humano, num leito, com um nome no prontuário. O que veio antes — o uso de antimicrobianos em animais, a bactéria que passou pela granja, pelo abatedouro, pela água ou pela cozinha — não aparece em nenhum exame.
O que a ciência e a norma dizem
A resistência antimicrobiana (RAM) é um problema de Saúde Única — o conceito de que a saúde humana, a saúde animal e o ambiente estão ligados. O maior estudo já feito sobre o peso da RAM, publicado na revista The Lancet em 2022 por um consórcio internacional de pesquisadores, estimou que, em 2019, infecções bacterianas resistentes foram diretamente responsáveis por cerca de 1,27 milhão de mortes no mundo e estiveram associadas a cerca de 4,95 milhões.
Onde entram os alimentos? Uma revisão publicada em 2025 na revista Microorganisms, por pesquisadores da Universidade de Qassim e de outras instituições sauditas, reuniu os números mais citados sobre a ligação entre a cadeia alimentar e a RAM. Alguns deles:
- Cerca de 73% dos antimicrobianos vendidos no mundo são usados em animais de produção, segundo estimativa de Van Boeckel e colaboradores, publicada na Science em 2019.
- Em países de renda baixa e média, a proporção de antimicrobianos com resistência acima de 50% subiu de 15% para 41% em frangos e de 13% para 34% em suínos entre 2000 e 2018, segundo o mesmo grupo — que apontou o Brasil entre os “pontos quentes emergentes”.
- Na União Europeia, estimativas da EFSA e do ECDC citadas pela revisão atribuem a cepas resistentes cerca de 7% dos casos confirmados de salmonelose e 17% dos de campilobacteriose em humanos — duas doenças tipicamente transmitidas por alimentos.
- Se nada mudar, o uso de antimicrobianos na pecuária pode chegar a cerca de 143 mil toneladas em 2040, alta de 29,5% sobre 2019, segundo projeção citada na revisão.
O caminho da bactéria resistente até as pessoas não passa só pelo prato. Passa pelo contato direto com animais, pela água, pelo solo adubado com dejetos, pelo trabalhador da granja e do abatedouro — e, sim, pela carne crua mal manipulada, pela contaminação cruzada na cozinha e pelo alimento malcozido.
A norma brasileira já reconhece essa ligação. O Mapa proibiu a colistina como aditivo melhorador de desempenho em ração animal pela Instrução Normativa nº 45, de 22 de novembro de 2016, e a tilosina, a lincomicina e a tiamulina com a mesma finalidade pela Instrução Normativa nº 1, de 13 de janeiro de 2020. A lógica é simples: antimicrobiano usado para fazer o animal crescer, e não para tratar doença, seleciona bactérias resistentes sem trazer benefício à saúde.
Onde está o grão de verdade
O mito não nasce do nada. O uso de antimicrobianos em seres humanos — dentro e fora do hospital — é, de fato, um motor central da resistência que mata pessoas, e o hospital concentra os pacientes mais vulneráveis e as bactérias mais difíceis de tratar. Também é verdade que medir quanto da resistência em humanos vem dos animais é difícil: as estimativas variam conforme a bactéria, o país e o método, e a própria revisão de 2025 tem limites importantes. É uma revisão narrativa, e não sistemática, restrita a artigos em inglês, que reúne números de fontes e anos diferentes. Esses números servem como panorama, não como série histórica comparável.
O erro do mito, portanto, não é dizer que o hospital importa. É dizer que só o hospital importa. A ciência não autoriza culpar a pecuária por toda a resistência humana — nem a absolve.
Como explicar isso para alguém da família
Uma forma simples: “Antibiótico é como um filtro. Cada vez que é usado — numa pessoa, numa vaca, num frango —, morrem as bactérias sensíveis e sobram as que resistem. Essas sobreviventes não ficam presas onde nasceram. Viajam na água, na terra, nas mãos e, às vezes, na carne crua. Por isso, cuidar do uso de antibiótico na fazenda também é cuidar da gente.”
E, na cozinha, a parte que cabe a cada um continua valendo: separar carne crua de alimentos prontos, lavar as mãos e utensílios depois de manipulá-la, cozinhar bem e não lavar o frango na pia, gesto que espalha bactérias em vez de eliminá-las. O cozimento adequado mata a bactéria resistente da mesma forma que mata a sensível.
A notícia chama atenção. A educação sanitária transforma essa atenção em proteção.
Referências
- Elbehiry A et al. (2025). Microbial Food Safety and Antimicrobial Resistance in Foods: A Dual Threat to Public Health. Microorganisms, 13(7), 1592. DOI: 10.3390/microorganisms13071592 — https://www.mdpi.com/2076-2607/13/7/1592
- Antimicrobial Resistance Collaborators (Murray CJL et al.) (2022). Global burden of bacterial antimicrobial resistance in 2019: a systematic analysis. The Lancet, 399(10325), 629–655. DOI: 10.1016/S0140-6736(21)02724-0 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35065702/
- Van Boeckel TP et al. (2019). Global trends in antimicrobial resistance in animals in low- and middle-income countries. Science, 365(6459), eaaw1944. DOI: 10.1126/science.aaw1944 — https://doi.org/10.1126/science.aaw1944
- Mapa. Lista de substâncias proibidas na alimentação animal (com os atos normativos correspondentes) — https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/Listadesusbtnciasp1.pdf
- Instrução Normativa MAPA nº 1/2020 — proíbe tilosina, lincomicina e tiamulina como melhoradores de desempenho — https://wikisda.agricultura.gov.br/dipoa_baselegal_aa/in_01-2020_proíbe_tilosina_lincomicina_tiamulina.pdf
Leia também no Além do Carimbo: “Resistente a quê? O retrato da resistência antimicrobiana na suinocultura brasileira e a lição de 30 anos de vigilância nos EUA” e “Lavar o frango antes de cozinhar deixa a carne mais segura?”.





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