Antes de existir o RIISPOA de 1952, alguém precisava inspecionar.
Antes dos grandes manuais.
Antes da padronização nacional que marcaria as décadas seguintes.
Antes de a ciência da carne ganhar seus grandes tratados.
Já existiam médicos-veterinários entrando em estabelecimentos, examinando condições industriais, comparando procedimentos entre regiões e transformando aquilo que encontravam no campo em relatórios para a administração central.
Entre os nomes que Miguel Cione Pardi colocaria posteriormente na “linha de frente” daquela etapa da inspeção estava:
Afonso Sylvestre Scharra.
Sua trajetória é particularmente importante porque pertence à geração imediatamente anterior à consolidação normativa representada pela Lei nº 1.283/1950 e pelo RIISPOA de 1952.
Scharra trabalhou quando muita coisa ainda precisava ser:
observada;
comparada;
interpretada;
harmonizada;
e transformada em prática administrativa.
Ele representa, portanto, uma dimensão essencial da nossa genealogia:
a experiência prática da inspeção antes da grande sistematização normativa do pós-guerra.
Um personagem ainda parcialmente escondido nos arquivos
Ao contrário de personagens como Pardi, Hermsdorff ou Panetta, Afonso Sylvestre Scharra não deixou, até onde conseguimos localizar nesta etapa, uma extensa autobiografia, uma grande obra publicada ou uma coleção facilmente acessível de documentos pessoais.
Sua trajetória precisa ser reconstruída de maneira diferente.
Através de:
Boletins do Pessoal do Ministério da Agricultura;
portarias;
listas funcionais;
atos de promoção;
missões oficiais;
e testemunhos de profissionais que trabalharam naquele período.
É justamente esse tipo de personagem que revela por que a história institucional não pode ser construída apenas a partir dos autores mais conhecidos.
Muitos dos profissionais que efetivamente sustentaram o funcionamento cotidiano do sistema deixaram rastros principalmente na documentação administrativa.
Scharra parece pertencer a esse grupo.
O que ainda não sabemos
Antes de avançar, é importante registrar algumas lacunas.
Nesta pesquisa ainda não conseguimos estabelecer documentalmente, com segurança:
sua data e local de nascimento;
sua escola e ano de formação;
a data exata de ingresso no Ministério da Agricultura;
o período completo de sua carreira;
a data de aposentadoria;
a data de falecimento.
Essas informações continuam abertas à pesquisa.
Nos termos do nosso editorial, isso significa:
não preencher as lacunas por inferência.
O que temos, entretanto, sobre sua atuação profissional já permite reconstruir uma parte importante de sua obra.
Um Inspetor de Produtos de Origem Animal
Em documentação oficial do Ministério da Agricultura de 1941 e 1942, Afonso Sylvestre Scharra aparece formalmente como:
Inspetor de Produtos de Origem Animal — Classe K.
Seu nome está inserido diretamente nos quadros da então Divisão de Inspeção de Produtos de Origem Animal — DIPOA.
Esse é o primeiro ponto fundamental.
Scharra não era apenas um veterinário ligado genericamente à pecuária.
Pertencia formalmente à carreira técnica encarregada da inspeção dos produtos de origem animal.
O que significava a Classe K?
Como já verificamos nos casos de Augusto de Oliveira Lopes e Nilo Garcia Carneiro, a letra não representava:
categoria de estabelecimento;
grau sanitário;
especialidade.
Indicava a posição funcional do servidor dentro da carreira pública.
A Classe K situava Scharra numa posição intermediária da carreira naquele momento.
Posteriormente, seu nome aparece entre os servidores considerados para progressão da:
Classe K para a Classe L
por critério de merecimento.
Esse registro tem importância dupla.
Primeiro, confirma sua integração à carreira permanente.
Segundo, demonstra que sua trajetória era avaliada dentro dos mecanismos formais de progressão do Ministério.
Uma carreira construída na prática
Essa talvez seja uma característica central de Scharra.
Não encontramos sua importância associada a um grande cargo político.
Nem a uma cátedra universitária.
Nem a uma descoberta isolada.
Sua autoridade parece ter sido construída principalmente dentro da própria inspeção.
Isso ajuda a explicar por que Pardi posteriormente o identificaria como uma de suas influências profissionais.
1941: uma missão que revela sua posição dentro do sistema
O documento mais importante encontrado nesta etapa é uma portaria da Divisão de Inspeção de Produtos de Origem Animal, datada de 5 de novembro de 1941.
O Diretor da DIPOA designou:
Afonso Sylvestre Scharra, Inspetor de Produtos de Origem Animal Classe K, com exercício na Inspetoria Regional em São Paulo
para uma missão de até 40 dias.
O objetivo era:
inspecionar e apresentar circunstanciado relatório sobre as condições dos estabelecimentos industriais localizados nas Inspetorias Regionais em Curitiba e Porto Alegre.
Esse ato é extraordinariamente revelador.
Não era uma visita de rotina
Scharra não estava sendo simplesmente deslocado temporariamente para substituir um servidor.
A missão possuía um produto definido:
um relatório circunstanciado.
Isso significa:
observar;
inspecionar;
registrar;
comparar;
avaliar;
informar a administração.
Essa é uma função próxima do que hoje reconheceríamos como atividade de supervisão ou avaliação técnica sistêmica, embora não devamos aplicar retroativamente as categorias modernas de auditoria.
Curitiba e Porto Alegre
A escolha dessas duas Inspetorias também é significativa.
Paraná e Rio Grande do Sul possuíam importantes estruturas de produção e industrialização de produtos de origem animal.
O Rio Grande do Sul, em particular, acumulava longa tradição:
pecuária;
charqueadas;
frigoríficos;
indústrias de carnes.
Enviar um inspetor da estrutura paulista para avaliar estabelecimentos vinculados a outras Inspetorias Regionais tinha um significado administrativo importante.
O Ministério precisava saber se o sistema funcionava de maneira minimamente coerente em diferentes regiões.
Uma inspeção nacional precisava comparar regiões
Esse problema permanece atual.
Uma norma federal deve produzir resultados razoavelmente homogêneos independentemente de onde esteja o estabelecimento.
São Paulo.
Paraná.
Rio Grande do Sul.
Minas Gerais.
Se diferentes regiões aplicam critérios completamente distintos, a inspeção perde:
previsibilidade;
isonomia;
credibilidade.
Nas décadas de 1930 e 1940, essa harmonização ainda estava sendo construída.
A missão de Scharra deve ser compreendida dentro desse processo.
Podemos chamá-lo de “auditor-chefe”?
Ainda não.
O material-base utiliza essa expressão.
Mas ela introduz uma categoria contemporânea que o ato de 1941 não utiliza.
O documento o chama de:
Inspetor de Produtos de Origem Animal Classe K.
E lhe atribui uma missão de:
inspeção;
avaliação;
relatório.
Portanto, a formulação historicamente mais segura é:
Scharra foi utilizado pela administração central em missões de avaliação técnica de estabelecimentos para além de sua região de exercício.
Isso já demonstra prestígio profissional suficiente.
O que significava produzir um “relatório circunstanciado”?
A expressão administrativa é importante.
Um relatório circunstanciado não é simples comunicação.
Pressupõe descrição detalhada das condições encontradas.
Na inspeção de estabelecimentos industriais, isso poderia envolver aspectos como:
condições higiênicas;
instalações;
processos;
rotinas;
funcionamento;
cumprimento de exigências.
Não devemos atribuir conteúdo específico sem localizar o próprio relatório.
Mas podemos afirmar que a direção esperava de Scharra uma avaliação suficientemente detalhada para subsidiar decisões administrativas.
O relatório ainda precisa ser encontrado
Esse documento seria extraordinariamente valioso para nossa pesquisa.
A portaria demonstra que o relatório deveria existir.
Mas ainda não localizamos sua versão integral.
Encontrá-lo permitiria saber:
quais estabelecimentos visitou;
quais problemas encontrou;
que critérios utilizou;
que recomendações apresentou;
como comparou as diferentes regiões.
É uma das próximas peças documentais mais importantes para a reconstrução da vida de Scharra.
1941–1942: safra e serviço extraordinário
Outro conjunto de documentos ajuda a compreender o ambiente em que esses profissionais trabalhavam.
Em novembro de 1941 e novamente em fevereiro de 1942, Scharra aparece entre os Inspetores de Produtos de Origem Animal envolvidos em regime de serviço extraordinário da DIPOA.
Em fevereiro de 1942, a própria portaria explica o motivo:
o início da safra nos estabelecimentos que elaboravam produtos de origem animal, muitos deles autorizados a funcionar além do horário regulamentar.
Esse detalhe nos permite enxergar o cotidiano da inspeção.
A indústria não funcionava em horário de repartição
Quando aumentava a produção:
o estabelecimento prolongava seu funcionamento;
a inspeção precisava permanecer;
os servidores trabalhavam horas extraordinárias.
Isso parece óbvio hoje.
Mas é um elemento importante da história administrativa.
A inspeção acompanha a produção.
Se existe abate, processamento ou elaboração sob inspeção permanente, o Estado precisa estar presente quando a indústria está funcionando.
O chão de fábrica da década de 1940
É nesse ambiente que devemos imaginar a geração de Scharra.
Grandes volumes de animais.
Instalações industriais em expansão.
Processos cada vez mais mecanizados.
Carne refrigerada.
Conservas.
Subprodutos.
Demandas crescentes do mercado.
E, pouco depois, os efeitos econômicos da Segunda Guerra Mundial.
A função do inspetor estava distante de uma atividade meramente documental.
Era profundamente operacional.
Scharra e Barretos
O material-base relaciona fortemente Scharra a Barretos e particularmente ao Frigorífico Anglo.
Essa associação é historicamente plausível.
Barretos era um dos grandes centros frigoríficos do país.
Além disso, sabemos com segurança que Miguel Cione Pardi foi designado, após concurso para o Ministério da Agricultura, ao Serviço de Inspeção Federal junto ao Frigorífico Anglo de Barretos, em 1940.
Também sabemos que Pardi identificou Afonso Sylvestre Scharra como uma das pessoas que exerceram papel relevante em sua formação profissional.
Entretanto, ainda falta a peça decisiva.
O que ainda precisamos provar sobre Barretos
Não localizamos, nesta etapa, um documento funcional primário que diga explicitamente:
“Afonso Sylvestre Scharra — chefe do SIF do Frigorífico Anglo de Barretos.”
Por isso, não devemos transformar essa relação em fato fechado.
A formulação correta neste momento é:
Scharra atuava na estrutura da Inspetoria Regional de São Paulo e exerceu influência profissional direta sobre Pardi, que iniciou sua carreira federal no SIF do Frigorífico Anglo de Barretos. A natureza exata da relação funcional entre ambos no estabelecimento ainda precisa ser documentada.
Essa distinção protege a qualidade histórica do nosso trabalho.
Pardi: a testemunha mais importante
Se os boletins nos dizem onde Scharra estava dentro da estrutura administrativa, Pardi nos fornece outra dimensão:
sua reputação profissional.
Quando perguntado sobre quem havia marcado sua vida profissional, Miguel Cione Pardi citou:
Afonso Sylvestre Scharra;
Altamir Gonçalves de Azevedo;
Augusto de Oliveira Lopes;
Belisário Alves Fernandes Távora;
Eloy Hardman de Albuquerque;
José Bifone;
Otto de Magalhães Pecego;
Pasqual Mucciolo.
E acrescentou que cada um havia tido uma participação especial em sua formação.
Esse depoimento possui peso histórico considerável.
Pardi não estava falando de personagens distantes
Ele havia vivido aquela época.
Ingressou no Ministério no final de 1939.
Foi para o SIF em Barretos.
Conheceu diretamente a geração anterior.
Quando coloca Scharra entre aqueles que moldaram sua formação profissional, não está fazendo apenas uma reconstrução bibliográfica.
Está dando um testemunho pessoal.
Mas devemos chamá-lo de “mentor de Pardi”?
Com cautela.
“Mentor” é uma palavra forte.
Pardi não utiliza esse termo de forma exclusiva para Scharra.
Ele cita um grupo de profissionais e afirma que cada um teve participação especial em sua formação.
Portanto, podemos dizer:
Afonso Sylvestre Scharra foi uma das influências profissionais explicitamente reconhecidas por Miguel Cione Pardi.
Isso é documentalmente perfeito.
Dizer que foi “o mentor” ou “o chefe que ensinou Pardi no Anglo” exigiria documentação adicional.
A linha de frente
Pardi fornece ainda uma segunda avaliação, talvez mais importante.
Quando perguntado sobre os profissionais que tiveram papel relevante na criação de novas diretrizes para a inspeção, ele primeiro recorda os chefes das primeiras Inspetorias Regionais:
Otto Pecego — São Paulo;
José Januário Carneiro Filho — Belo Horizonte;
Eduardo Ribeiro de Queiroz — Curitiba;
Paulo Fróes da Cruz — Porto Alegre.
Depois acrescenta aqueles que considera integrantes da:
“linha de frente”
daquela etapa.
E o primeiro nome listado é:
Afonso Sylvestre Scharra.
A expressão “linha de frente” é muito forte
Ela vem do próprio Pardi.
Isso nos permite utilizá-la sem precisar inventar uma classificação moderna.
Scharra não precisa ser apresentado como:
“pai do SIF”;
“criador da inspeção”;
“maior autoridade”.
Pardi fornece uma definição muito melhor:
linha de frente.
O que era estar na linha de frente?
Era transformar a administração em prática.
Alguém podia publicar:
decreto;
portaria;
instrução.
Mas dentro do estabelecimento havia perguntas concretas.
Esta lesão implica condenação?
Este processo é aceitável?
Esta instalação permite higiene adequada?
Este produto pode ser liberado?
Esse estabelecimento está cumprindo as exigências?
Era nesse espaço entre a norma e a realidade que profissionais como Scharra trabalhavam.
Antes do RIISPOA
Esse aspecto torna sua trajetória especialmente importante.
O Decreto nº 30.691, que aprovou o histórico RIISPOA, só seria publicado em 29 de março de 1952.
Scharra já estava atuando muito antes.
Isso significa que sua geração trabalhou durante o período em que:
procedimentos ainda estavam amadurecendo;
experiências regionais precisavam ser comparadas;
critérios necessitavam de harmonização;
o próprio Estado aprendia a administrar uma rede nacional de estabelecimentos.
Não devemos dizer que Scharra preparou sozinho o RIISPOA
Não há evidência para isso.
Mas podemos dizer algo historicamente mais interessante:
a experiência acumulada por profissionais da linha de frente como Scharra pertence ao ambiente técnico e institucional que antecedeu a consolidação representada pelo RIISPOA de 1952.
Regulamentos não surgem no vazio.
Eles cristalizam décadas de:
experiência;
problemas;
soluções;
debates;
práticas administrativas.
A teoria vem depois da prática — e retorna a ela
Aqui aparece uma relação muito interessante entre Scharra e Pardi.
Scharra representa fortemente:
a prática da inspeção.
Pardi seria posteriormente conhecido por:
sistematizar a ciência, a higiene e a tecnologia da carne.
Essa diferença não deve ser transformada em oposição.
Pelo contrário.
A ciência de uma área aplicada frequentemente nasce da organização sistemática dos problemas encontrados na prática.
Scharra escreveu os dados que deram origem ao tratado de Pardi?
Não podemos afirmar isso.
O material-base sugere que Pardi teria compilado, sob orientação de Scharra, dados epidemiológicos que posteriormente formariam a base de Ciência, Higiene e Tecnologia da Carne.
Até o momento não encontramos fonte primária ou depoimento explícito de Pardi sustentando essa cadeia causal.
Por isso, essa afirmação deve ser retirada.
O que podemos demonstrar é:
Pardi trabalhou na inspeção federal em Barretos;
Scharra era integrante experiente da inspeção;
Pardi o reconheceu posteriormente como influência profissional direta.
Isso é suficiente para demonstrar transmissão de experiência entre gerações, sem criar uma genealogia bibliográfica que ainda não conseguimos provar.
Uma promoção por merecimento
Outro documento acrescenta uma informação importante sobre sua carreira.
Na relação de servidores considerados para progressão da:
Classe K para a Classe L
Scharra aparece entre os nomes classificados por merecimento, junto a profissionais como:
Augusto de Oliveira Lopes;
Francisco Fragoso Filho;
Sylvio Romero Soares Alvim;
José de Arimathéia Pereira Soares;
entre outros.
Esse documento reforça sua posição dentro do quadro profissional da inspeção.
O que significa “merecimento”?
No contexto administrativo, não devemos traduzir isso simplesmente como:
“era um dos melhores fiscais do Brasil.”
O termo fazia parte do sistema formal de promoção funcional.
Mas demonstra que sua progressão não ocorria apenas por antiguidade.
Existia avaliação funcional dentro da carreira.
A missão ao Sul talvez seja ainda mais reveladora que a promoção
Promoção mostra sua posição dentro da carreira.
A missão de 1941 mostra algo diferente:
confiança técnica.
A direção poderia escolher diferentes servidores para visitar estabelecimentos fora de São Paulo.
Escolheu Scharra.
E esperava dele um relatório circunstanciado.
Esse fato, por si só, ajuda a explicar por que Pardi o recordaria décadas depois.
Scharra e a harmonização da inspeção
Aqui podemos fazer uma interpretação, desde que claramente identificada como tal.
Quando um profissional de uma Inspetoria Regional é enviado para avaliar estabelecimentos de outras regiões, o Estado começa a criar mecanismos de:
comparação;
supervisão;
circulação de experiência.
Essa circulação é um dos caminhos pelos quais práticas tendem a se harmonizar.
Não sabemos ainda se o relatório de Scharra gerou determinada circular ou alteração normativa.
Mas sabemos que o mecanismo institucional estava presente.
E as viagens ao Rio de Janeiro?
O material-base afirma que Scharra permanecia longos períodos na capital federal despachando com a direção da DIPOA e utilizando seus relatórios para propor diretrizes nacionais de julgamento de carcaças.
Até esta etapa da pesquisa, não localizamos documentação suficiente para reconstruir essa atividade com o grau de detalhe apresentado.
É possível que boletins adicionais tragam deslocamentos ao Rio.
Mas sem o respectivo motivo administrativo, não devemos afirmar:
que ele formulou determinadas diretrizes;
que padronizou nacionalmente condenações;
ou que seus relatórios foram diretamente transformados em normas.
Essa continua sendo uma linha de pesquisa.
O que já podemos afirmar é suficientemente forte
Scharra:
era Inspetor de Produtos de Origem Animal;
pertencia à Inspetoria Regional de São Paulo;
ocupava a Classe K;
participava das atividades extraordinárias da DIPOA durante a safra;
foi enviado oficialmente a Curitiba e Porto Alegre para inspecionar estabelecimentos e produzir relatório circunstanciado;
figurou em progressão funcional para Classe L por merecimento;
foi reconhecido por Pardi como integrante da linha de frente da inspeção;
e foi citado por Pardi como uma influência especial em sua formação profissional.
Esse conjunto é excepcional.
Uma autoridade prática
É nesse sentido que podemos caracterizá-lo como uma das autoridades práticas da era formativa da inspeção federal.
Não porque tenha ocupado necessariamente o cargo administrativo mais alto.
Mas porque seu nome aparece ligado ao funcionamento concreto do sistema.
Inspecionar.
Viajar.
Avaliar.
Relatar.
Transmitir experiência.
Essa era a infraestrutura humana da inspeção.
O homem que não precisava escrever um tratado para deixar legado
Alguns profissionais deixam sua contribuição em livros.
Outros em leis.
Outros em laboratórios.
Profissionais como Scharra podem deixar sua marca principalmente em:
procedimentos;
relatórios;
decisões;
formação de colegas.
É um legado muito mais difícil de reconstruir.
Mas não menos importante.
A segunda geração: Donato Sylvestre Scharra
A história também possui uma continuidade familiar interessante.
Donato Sylvestre Scharra, identificado em fontes posteriores como filho de Afonso, seguiu a Medicina Veterinária e construiu trajetória acadêmica na Universidade Federal Fluminense.
Em 1970, documentação da própria UFF registra Donato como:
Professor Assistente do Departamento de Tecnologia dos Alimentos, cuja titularidade era exercida por Miguel Cione Pardi.
Essa informação cria uma conexão geracional extraordinária.
O filho de Scharra trabalhando no departamento de Pardi
Observe a sequência.
Pardi reconhece Afonso Scharra como influência em sua formação profissional.
Décadas depois, Donato Sylvestre Scharra aparece no Departamento de Tecnologia dos Alimentos da UFF:
sob a liderança acadêmica de Miguel Cione Pardi.
É uma inversão geracional muito interessante.
Primeiro:
Scharra → influência sobre Pardi.
Depois:
Pardi → ambiente acadêmico em que atua Donato Scharra.
Donato e a pós-graduação
A documentação da pós-graduação da UFF também registra Donato como orientador de trabalhos relacionados à tecnologia dos produtos de origem animal.
Entre eles aparecem dissertações sobre:
processamento de sardinha;
pasta de pescado enlatada.
A tradição familiar, portanto, passou da inspeção federal para a universidade.
1981: Donato e o CBMVHA
Essa continuidade torna-se ainda mais significativa em 26 de março de 1981.
Quando o Conselho Federal de Medicina Veterinária criou a comissão destinada a viabilizar uma associação nacional de profissionais de higiene de alimentos, entre seus cinco integrantes estavam:
Miguel Cione Pardi;
José Cezar Panetta;
Paulo Caldeira Brant;
Glênio Cavalcanti de Barros;
Donato Sylvestre Scharra.
A comissão seria considerada posteriormente o embrião do Colégio Brasileiro de Médicos Veterinários Higienistas de Alimentos — CBMVHA.
Uma genealogia quase perfeita
Existe aqui uma sequência histórica muito bonita.
Afonso Scharra — inspeção federal prática nas décadas de 1930 e 1940.
Miguel Cione Pardi — sistematização científica, tecnologia da carne e formação universitária.
Donato Scharra — universidade, tecnologia dos alimentos e organização da comunidade de higienistas.
Não devemos transformar essa relação em uma linhagem exclusiva.
Mas ela revela de forma exemplar como o conhecimento circula entre gerações.
Aposentadoria de Donato
A Universidade Federal Fluminense registra a aposentadoria voluntária de Donato Sylvestre Scharra, então Professor Adjunto 04, em 1996.
Isso significa que a presença acadêmica da família Scharra se estendeu por décadas além da fase inicial vivida por Afonso no Serviço de Inspeção Federal.
A passagem entre dois mundos
Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes para o Além do Carimbo.
Afonso representa:
o estabelecimento;
a missão de inspeção;
o relatório;
a administração federal.
Donato representa:
o departamento universitário;
a pós-graduação;
a tecnologia dos alimentos;
o associativismo científico.
Entre eles aparece Pardi.
É quase uma miniatura da evolução da própria área.
Do inspetor ao pesquisador
A história da inspeção brasileira segue frequentemente esse movimento:
primeiro, resolver o problema na prática.
Depois, sistematizá-lo.
Depois, ensinar.
Depois, pesquisar.
Depois, criar associações e pós-graduações.
A família Scharra atravessa duas dessas grandes etapas.
Scharra e o RIISPOA
Quando o RIISPOA foi publicado em 1952, ele encontrou um Serviço de Inspeção que já possuía décadas de experiências acumuladas.
Profissionais como Scharra haviam trabalhado:
antes da grande consolidação normativa;
durante o crescimento da indústria;
durante a expansão das Inspetorias Regionais;
durante a necessidade de comparar práticas em diferentes estados.
Sua importância está justamente nesse lugar histórico.
A geração que preparou o terreno
Não podemos afirmar:
“Scharra escreveu o RIISPOA.”
Não podemos afirmar:
“as regras de condenação de 1952 foram criadas por Scharra.”
Mas podemos afirmar:
Scharra pertenceu à geração de inspetores cuja experiência prática ajudou a constituir o ambiente profissional e institucional sobre o qual a inspeção brasileira seria posteriormente sistematizada.
Essa é uma afirmação historicamente sólida.
Onde Scharra entra na nossa genealogia?
Afonso Sylvestre Scharra ocupa um lugar bastante específico.
Claude Rebourgeon — ciência veterinária experimental.
Muniz de Aragão — bacteriologia, Veterinária Militar e defesa animal.
Parreiras Horta — microbiologia e Estado sanitário.
Franklin de Almeida — carne como objeto científico e regulatório.
Guilherme Hermsdorff — Veterinária na arquitetura institucional do Estado.
Argemiro de Oliveira — ciência laboratorial.
Nilo Garcia Carneiro — legislação sanitária e comparação internacional.
Otto Pecego — territorialização da inspeção.
Afonso Sylvestre Scharra — prática operacional, supervisão inter-regional e transmissão profissional da inspeção.
Henrique Blanc — sanidade, fronteiras e inspeção.
Belisário Távora — defesa sanitária e planejamento frigorífico.
José Januário Carneiro Filho — laticínios e gestão regional.
Augusto de Oliveira Lopes — administração do sistema.
Paschoal Mucciolo — experimentação científica aplicada.
Miguel Cione Pardi — sistematização e doutrina.
Iacir Francisco dos Santos — diagnóstico e padronização.
Elmo Rampini de Souza — tecnologia.
José Christovam Santos — engenharia sanitária.
José Cezar Panetta — pós-graduação, associativismo e circulação científica.
Scharra representa uma capacidade essencial:
fazer a inspeção funcionar antes que ela estivesse completamente sistematizada.
O verdadeiro legado de Afonso Sylvestre Scharra
Sua contribuição, no estado atual da pesquisa, pode ser compreendida em seis dimensões.
A primeira é operacional.
Foi Inspetor de Produtos de Origem Animal inserido diretamente na estrutura da DIPOA.
A segunda é territorial.
Atuava na Inspetoria Regional de São Paulo em um dos períodos de maior expansão da indústria frigorífica brasileira.
A terceira é supervisora.
Foi formalmente enviado para avaliar estabelecimentos pertencentes às Inspetorias Regionais de Curitiba e Porto Alegre e produzir relatório circunstanciado.
A quarta é funcional.
Construiu carreira dentro do serviço e aparece entre os candidatos à progressão da Classe K para L por merecimento.
A quinta é formadora.
Miguel Cione Pardi o reconheceu explicitamente como uma das influências relevantes de sua vida profissional.
A sexta é geracional.
Seu filho Donato levaria o nome Scharra para o Departamento de Tecnologia dos Alimentos da UFF, a pós-graduação e a comissão que originaria o CBMVHA.
Um inspetor antes dos grandes manuais
Talvez seja essa a melhor maneira de apresentá-lo.
Scharra pertenceu à geração que precisava saber inspecionar quando ainda não existia toda a infraestrutura doutrinária que as gerações seguintes receberiam pronta.
O conhecimento circulava muito por:
experiência;
chefias;
missões;
relatórios;
contato entre profissionais.
A qualidade do sistema dependia profundamente da competência de quem estava na linha de frente.
Além do Carimbo
Quando hoje um AFFA entra em um estabelecimento, encontra atrás de si mais de um século de conhecimento acumulado.
Há:
regulamentos;
manuais;
programas;
sistemas informatizados;
laboratórios;
bases de dados;
procedimentos padronizados.
Afonso Sylvestre Scharra trabalhou numa época diferente.
Era preciso viajar durante semanas.
Entrar em estabelecimentos de outras regiões.
Observar.
Comparar.
Escrever relatórios.
Levar experiência de um lugar para outro.
A inspeção brasileira ainda aprendia consigo mesma.
Talvez seja justamente por isso que Miguel Cione Pardi, décadas depois, fez questão de lembrar seu nome.
Não como autor de um grande tratado.
Não como ministro.
Não como professor catedrático.
Mas como alguém da:
linha de frente.
E há enorme significado nisso.
Porque antes de uma prática virar doutrina, alguém precisa praticá-la.
Antes de uma experiência virar manual, alguém precisa vivê-la.
Antes de um sistema ser padronizado, alguém precisa percorrer o país e descobrir onde ele ainda não é uniforme.
Afonso Sylvestre Scharra pertenceu a essa geração.
Uma geração que transformou normas ainda em construção em decisões concretas dentro dos estabelecimentos.
E que transmitiu sua experiência para aqueles que, como Miguel Cione Pardi, transformariam essa prática em ciência, ensino e doutrina.
Talvez esse seja o lugar mais preciso do Dr. Afonso Sylvestre Scharra na nossa história:
um dos homens que ajudaram a transformar a inspeção federal de uma estrutura em formação numa prática profissional de Estado.
Mais um dos personagens fundamentais daquilo que existe Além do Carimbo.
Fontes e referências consultadas
BRASIL. Ministério da Agricultura. Boletim do Pessoal, novembro de 1941. Portaria de 5 de novembro de 1941 designa Afonso Sylvestre Scharra, Inspetor de Produtos de Origem Animal Classe K, com exercício na Inspetoria Regional de São Paulo, para inspecionar estabelecimentos das Inspetorias Regionais de Curitiba e Porto Alegre e apresentar relatório circunstanciado no prazo máximo de 40 dias.
BRASIL. Ministério da Agricultura. Boletim do Pessoal, novembro de 1941. Registra Afonso Sylvestre Scharra entre os Inspetores de Produtos de Origem Animal Classe K vinculados ao programa de serviços extraordinários da DIPOA.
BRASIL. Ministério da Agricultura. Boletim do Pessoal, fevereiro de 1942. Registra Scharra como Inspetor Classe K no quadro da DIPOA e documenta a ampliação de jornada durante a safra dos estabelecimentos produtores de produtos de origem animal.
BRASIL. Ministério da Agricultura. Boletim do Pessoal — suplemento de promoções. Inclui Afonso Sylvestre Scharra entre os ocupantes da Classe K considerados para promoção à Classe L por merecimento.
PARDI, Miguel Cione. Entrevista originalmente publicada pela Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária e posteriormente reproduzida pela Academia Paulista de Medicina Veterinária. Pardi inclui Afonso Sylvestre Scharra entre os profissionais da “linha de frente” da inspeção de produtos de origem animal e, em outro momento da entrevista, entre aqueles que exerceram papel relevante em sua formação profissional.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Portaria de composição do corpo docente, 1970. Registra Donato Sylvestre Scharra como Professor Assistente do Departamento de Tecnologia dos Alimentos, cujo Professor Titular era Miguel Cione Pardi.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Programa de Pós-Graduação em Higiene Veterinária e Processamento Tecnológico de Produtos de Origem Animal. Relação histórica de dissertações registra Donato Sylvestre Scharra como orientador de pesquisas relacionadas ao processamento e à tecnologia do pescado.
COLÉGIO BRASILEIRO DE MÉDICOS VETERINÁRIOS HIGIENISTAS DE ALIMENTOS — CBMVHA. Histórico institucional registra Donato Sylvestre Scharra entre os cinco membros da comissão constituída pelo CFMV, em 1981, para viabilizar a criação da associação que daria origem ao Colégio.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Boletim de Serviço, 1996. Registra a aposentadoria voluntária de Donato Sylvestre Scharra, Professor Adjunto 04 da Universidade.




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