O risco que se mastiga
Entre os perigos que um alimento pode carregar, os físicos são os mais concretos e, muitas vezes, os mais subestimados. Um fragmento de metal, um pedaço de plástico rígido, uma lasca de osso, uma borracha que se desprendeu de uma vedação. Não há período de incubação nem análise laboratorial demorada: o dano acontece na primeira mordida. Cortes na boca, dentes quebrados, perfurações no trato digestivo.
A indústria convive com esse risco há décadas e aprendeu a combatê-lo com peneiras, ímãs, detectores de metal e, mais recentemente, raio-X. Mas cada tecnologia tem um ponto cego. Detectores de metal não enxergam plástico. O raio-X convencional tem dificuldade com materiais de baixa densidade, justamente os que mais se parecem com o próprio alimento. E toda máquina calibrada para não deixar passar nada tende a rejeitar demais, gerando desperdício.
É nesse ponto cego que a inteligência artificial está começando a entrar. E a forma como ela entra diz muito sobre para onde vai a inspeção de linha nas indústrias de alimentos.
O que mudou
A Mettler Toledo, uma das principais fabricantes mundiais de equipamentos de inspeção para a indústria de alimentos, apresentou em agosto o X56 DXD+, um sistema de inspeção por raio-X voltado a alimentos embalados, com destaque para carnes. O equipamento foi exibido na Pack Expo International, uma das maiores feiras de embalagem e processamento dos Estados Unidos.
O sistema combina duas tecnologias. A primeira é um detector de dupla energia com contagem de fótons, que analisa a forma como diferentes materiais absorvem o raio-X em duas faixas de energia distintas. Isso permite diferenciar materiais que, num raio-X comum, pareceriam iguais, como um fragmento de borracha escondido num pedaço de carne. A segunda é uma camada de inteligência artificial que melhora a confiabilidade da inspeção e reduz rejeições desnecessárias, especialmente em situações complexas, como produtos sobrepostos ou misturados na embalagem.
Além da detecção de contaminantes, o equipamento verifica se a embalagem está completa, identifica clipes metálicos de fechamento e detecta produto preso na área de selagem, um defeito que compromete a vedação. A capacidade informada é de até 500 unidades por minuto, e o sistema se integra a um software de gestão de dados que registra as inspeções em tempo real para fins de conformidade.
A fabricante destaca também aspectos de projeto sanitário, como a remoção da esteira sem ferramentas para facilitar a limpeza, um detalhe que importa quando o próprio equipamento de inspeção pode se tornar fonte de contaminação se não for higienizado corretamente.
Contexto global
As agências reguladoras tratam o perigo físico com critérios cada vez mais objetivos. Nos Estados Unidos, a FDA mantém desde a década de 1990 um guia de política de conformidade que considera adulterado o alimento que contém objetos duros ou cortantes entre 7 e 25 milímetros, tamanho associado a risco de lesão. O critério nasceu de uma análise de casos de ferimentos relatados por consumidores e se tornou referência internacional.
A regulação de controles preventivos da FSMA, em vigor desde 2016, reforçou a exigência de que as empresas identifiquem perigos físicos em sua análise de perigos e implementem controles adequados, com monitoramento, verificação e registros. No setor de carnes, o serviço de inspeção do Departamento de Agricultura americano acompanha a presença de materiais estranhos como um dos motivos recorrentes de recolhimento.
Na Europa, a legislação alimentar geral proíbe a colocação no mercado de alimentos inseguros, e a presença de corpos estranhos está entre as causas frequentes de notificações no sistema de alerta rápido do bloco. As certificações privadas reconhecidas pela GFSI, como BRCGS e IFS, exigem programas específicos de controle de materiais estranhos e validação periódica dos equipamentos de detecção.
A tendência comum é clara: não basta ter um detector na linha. É preciso demonstrar que ele funciona, que foi calibrado, que foi testado com padrões e que as rejeições foram tratadas.
Também vale lembrar que a detecção é a última barreira, e não a primeira. As normas e os programas de certificação insistem que o controle de materiais estranhos começa muito antes do raio-X: na manutenção preventiva dos equipamentos, na política de vidros e plásticos rígidos, no controle de ferramentas e utensílios, no uso de luvas e toucas de cores detectáveis e na inspeção das matérias-primas recebidas. O equipamento de inspeção existe para capturar o que escapou a essas camadas de prevenção. Quando uma linha depende exclusivamente dele, o sistema de controle está invertido.
Conexões invisíveis
Consequência 1: menos falso positivo significa menos desperdício e mais confiança. Um equipamento que rejeita demais cria um problema silencioso. O produto rejeitado precisa ser reinspecionado ou descartado, o que custa dinheiro e gera desperdício. Pior: operadores acostumados a rejeições em excesso tendem a desconfiar do equipamento e, em alguns casos, a reduzir sua sensibilidade. A inteligência artificial que distingue melhor o que é contaminante do que é variação normal do produto protege a eficácia da inspeção, não apenas a eficiência.
Consequência 2: o contaminante plástico ganha visibilidade. A indústria moderna usa cada vez mais plástico e borracha em equipamentos, luvas, embalagens e utensílios. Esses materiais são justamente os mais difíceis de detectar. Tecnologias capazes de enxergar contaminantes de baixa densidade mudam o equilíbrio entre o risco que cresce e a capacidade de controlá-lo. Para quem faz análise de perigos, isso significa rever o que é considerado controlável.
Consequência 3: a inteligência artificial vira item de série, e o preço tende a cair. Quando um fabricante líder incorpora IA como recurso padrão, e não como acessório premium, a tendência é que concorrentes façam o mesmo. Com o tempo, a tecnologia chega a equipamentos de médio porte e a preços mais acessíveis. É o caminho pelo qual inovações de grandes plantas acabam alcançando indústrias menores.
O que poucos percebem é que o equipamento de inspeção também gera dados. Cada rejeição registrada é uma pista sobre a origem do problema. Uma linha que rejeita fragmentos plásticos sempre no mesmo turno está contando uma história sobre manutenção, e não apenas sobre detecção.
Existe ainda uma questão de validação. Um algoritmo que decide o que é contaminante e o que não é precisa ser testado com os produtos reais da fábrica, com as variações de formato, gordura, osso e embalagem que acontecem no dia a dia. Sem validação local, o risco é confiar numa taxa de acerto medida em condições ideais que não se repetem na linha. Para o serviço de inspeção, a pergunta relevante será sempre a mesma: como a empresa demonstrou que o equipamento funciona para o seu produto?
Implicações para o Brasil
O Brasil tem regulação específica sobre o tema. A RDC nº 623/2022 da Anvisa estabelece limites de tolerância para matérias estranhas em alimentos e classifica os objetos rígidos, pontiagudos ou cortantes com 7 milímetros ou mais na maior dimensão como indicativos de risco à saúde, alinhando-se ao critério internacional. A norma diferencia matérias estranhas que indicam falhas de boas práticas daquelas que representam perigo direto ao consumidor.
Para os estabelecimentos sob inspeção federal, o controle de perigos físicos integra os programas de autocontrole exigidos pelo Ministério da Agricultura, incluindo o plano APPCC. Com a Lei do Autocontrole e o avanço da fiscalização baseada em risco, a capacidade de demonstrar a eficácia desses controles ganha peso na relação entre empresa e serviço de inspeção. Equipamentos que registram automaticamente cada inspeção e cada rejeição facilitam essa demonstração.
Para as grandes indústrias exportadoras, o raio-X já é realidade em muitas linhas. O desafio está nas médias e pequenas, que ainda dependem majoritariamente de detectores de metal e de inspeção visual. Para elas, a queda de preço e a popularização da tecnologia serão determinantes. Consultores e responsáveis técnicos têm papel importante ao ajudar a dimensionar corretamente a necessidade, evitando tanto o subinvestimento quanto a compra de equipamentos superdimensionados.
Há ainda uma dimensão de consumo. Queixas por corpo estranho estão entre as mais comuns nos serviços de atendimento ao consumidor e costumam ganhar grande repercussão nas redes sociais. Para uma marca, um único caso viral pode custar mais do que o investimento em inspeção de linha.
Para quem avalia a compra de um equipamento desse tipo, algumas perguntas ajudam a separar necessidade de modismo. Quais contaminantes físicos aparecem com mais frequência no histórico da planta? Qual é a taxa atual de rejeição e quanto ela custa? O equipamento atual foi validado com padrões de teste representativos dos materiais usados na fábrica? Os registros de inspeção são analisados para identificar a origem dos problemas ou apenas arquivados? As respostas mostram se o gargalo está na tecnologia de detecção ou na gestão do que já existe.
Conclusão
O raio-X com inteligência artificial não elimina o perigo físico. Nenhum equipamento elimina. O que ele faz é reduzir dois tipos de erro ao mesmo tempo: o contaminante que passa e o produto bom que é descartado. Em segurança dos alimentos, equilibrar esses dois erros é a essência do controle.
Isso marca a transição de uma inspeção de linha que apenas detecta para uma que também aprende. Para a indústria brasileira, a questão não é se a tecnologia vai chegar, mas quando ela se tornará acessível às plantas que hoje mais precisariam dela.
Referências
- Meatingplace — “AI-Powered X-Ray Inspection System Targets Packaged Meats” — https://meatingplace.com/x-ray-inspection-system-with-ai-capabilities/
- FDA — “CPG Sec. 555.425 Foods, Adulteration Involving Hard or Sharp Foreign Objects” — https://www.fda.gov/regulatory-information/search-fda-guidance-documents/cpg-sec-555425-foods-adulteration-involving-hard-or-sharp-foreign-objects
- Food Safety Magazine — “Controlling Foreign Object Hazards in Food” — https://www.food-safety.com/articles/8501-controlling-foreign-object-hazards-in-food
- ILSI Brasil — “Matérias estranhas em alimentos” — https://ilsibrasil.org/artigo-materias-estranhas-em-alimentos/
- Anvisa — Resolução RDC nº 623, de 9 de março de 2022 — https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&link=S&tipo=RDC&numeroAto=00000623&seqAto=000&valorAno=2022&orgao=RDC%2FDC%2FANVISA%2FMS&cod_modulo=310&cod_menu=9431




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