A pergunta que ninguém sabe responder
Pergunte a dez gestores de qualidade se a empresa deles é digital e a maioria vai dizer que sim. Afinal, há um sistema de gestão empresarial, algumas planilhas na nuvem, talvez um tablet para os checklists. Agora pergunte quanto tempo levariam para reunir todos os registros de um lote específico em caso de recall, ou quantos pontos de controle ainda dependem de anotação em papel. As respostas costumam ser bem menos animadoras.
A indústria de alimentos vive um paradoxo. Todos falam em transformação digital, fornecedores vendem soluções cada vez mais sofisticadas, mas quase ninguém sabe dizer, com base em dados independentes, onde o setor realmente está. Sem essa referência, cada decisão de investimento vira aposta, e cada argumento para convencer a diretoria depende mais de convicção do que de evidência.
Foi para preencher essa lacuna que nasceu, em agosto, um novo braço de pesquisa dedicado a medir a maturidade digital da segurança dos alimentos. A iniciativa é americana, mas a pergunta que ela faz vale para qualquer indústria, inclusive a brasileira.
O que mudou
A Food Safety Tech, publicação especializada do grupo Innovative Publishing, lançou a Food Safety Tech Research (FSTR), uma unidade de pesquisa e consultoria voltada à interseção entre segurança dos alimentos, tecnologia e desempenho operacional orientado por dados. O primeiro estudo da nova unidade é o Food Safety Digital Maturity Benchmark, um levantamento que pretende medir como fabricantes de alimentos e bebidas estão adotando tecnologias digitais.
O objetivo declarado é estabelecer a primeira medição abrangente e independente do setor, identificando onde a digitalização está funcionando, quais barreiras impedem seu avanço e como a maturidade digital influencia a segurança dos alimentos, a resiliência operacional e o desempenho dos negócios. Profissionais de fabricantes são convidados a responder de forma confidencial e anônima e, em troca, recebem o relatório com os resultados e um painel individual de maturidade que permite comparar a própria empresa com a média do setor.
A justificativa da iniciativa é direta: fornecedores publicam estudos de caso, analistas publicam opiniões, mas faltava ao setor uma referência independente e baseada em pesquisa. O cofundador e diretor de pesquisa, David Hatch, afirmou que a transformação digital deixou de ser opcional, mas que as organizações ainda não dispõem de evidências independentes para orientar suas decisões.
Os primeiros resultados devem ser divulgados progressivamente ao longo do segundo semestre, com apresentação oficial prevista para o Food Safety Consortium, conferência que acontece em Washington entre 21 e 23 de outubro de 2026.
Contexto global
Medir maturidade não é uma ideia nova. Na gestão de qualidade, modelos de maturidade são usados há décadas para avaliar desde processos de software até sistemas de gestão. Na segurança dos alimentos, a Global Food Safety Initiative (GFSI) incorporou o conceito de cultura de segurança dos alimentos aos seus requisitos de reconhecimento na versão publicada em 2020, levando o tema para dentro das certificações. Medir cultura e medir maturidade digital são exercícios parecidos: ambos tentam transformar algo difuso em indicador comparável.
O que motiva a pressa por esse tipo de medição é regulatório e comercial. Nos Estados Unidos, a estratégia “Nova Era da Segurança dos Alimentos Mais Inteligente”, lançada pela FDA em 2020, colocou a rastreabilidade habilitada por tecnologia e as ferramentas digitais no centro da política pública. A regra de rastreabilidade da FSMA, que exige registros de eventos críticos da cadeia para alimentos de alto risco, é um exemplo concreto de exigência que só pode ser cumprida em escala com sistemas digitais.
Na Europa, a digitalização avança tanto pelo lado do regulador, com plataformas como o TRACES e ferramentas de análise baseadas em inteligência artificial, quanto pelo lado do varejo, que exige dados cada vez mais detalhados de seus fornecedores.
O ponto em comum é que a indústria está sendo pressionada a digitalizar sem ter uma régua para saber se está avançando rápido o suficiente. Um benchmark independente é essa régua.
Na prática, maturidade digital em segurança dos alimentos costuma ser avaliada em algumas dimensões. A primeira é a captura de dados: se os registros de monitoramento são feitos em papel, em planilhas ou diretamente por sensores. A segunda é a integração: se as informações de qualidade conversam com produção, compras e logística ou ficam isoladas. A terceira é a análise: se a empresa apenas arquiva registros ou usa os dados para identificar tendências e antecipar problemas. A quarta é a resposta: quanto tempo leva para rastrear um lote e agir em caso de desvio. Uma empresa pode estar avançada numa dimensão e atrasada em outra.
Conexões invisíveis
Consequência 1: o investimento em qualidade passa a ter argumento financeiro. O gestor de qualidade raramente perde a discussão por falta de razão técnica. Perde por falta de argumento que a diretoria financeira entenda. Um dado independente que mostra que a empresa está abaixo da média do setor, e que empresas mais maduras têm menos recolhimentos ou menor custo de não conformidade, transforma uma demanda técnica em decisão de negócio.
Consequência 2: quem mede também define o que conta. Todo benchmark carrega uma visão sobre o que é maturidade. Se o estudo valoriza sensores e integração de dados, empresas que investiram em treinamento e cultura podem parecer menos maduras do que são. É importante que o setor leia esses resultados com senso crítico, entendendo a metodologia antes de adotar os números como verdade. Um indicador mal compreendido pode levar a investimentos na direção errada.
Consequência 3: o mercado de soluções ganha um termômetro. Fornecedores de software, seguradoras e investidores também usam esse tipo de dado. Seguradoras podem começar a considerar maturidade digital na avaliação de risco de recolhimento. Investidores podem usar os resultados para identificar onde estão as lacunas de mercado. O benchmark, que nasce como ferramenta para a indústria, também passa a orientar quem vende para ela.
O que poucos percebem é que a digitalização da segurança dos alimentos não se mede pela quantidade de tecnologia comprada, mas pela capacidade de usar os dados para decidir. Uma fábrica cheia de sensores e sem ninguém analisando os alertas é menos madura do que uma fábrica com poucos sistemas bem usados.
Há também o risco de tratar maturidade digital como fim em si mesma. A tecnologia só se justifica se melhorar resultados concretos, como menos recolhimentos, respostas mais rápidas a desvios, menor desperdício e auditorias mais eficientes. Um bom benchmark precisa relacionar o nível de digitalização a esses resultados, e não apenas contar quantas ferramentas cada empresa adotou. Caso contrário, o setor corre o risco de trocar uma pergunta útil por uma corrida de compras.
Implicações para o Brasil
O Brasil não tem um benchmark de maturidade digital específico para a segurança dos alimentos. Os dados disponíveis são gerais. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostrou que, em 2021, 69% das indústrias brasileiras usavam ao menos uma tecnologia digital, contra 48% em 2016. Mas apenas 7% haviam adotado dez ou mais tecnologias, e 31% não haviam adotado nenhuma. O alto custo de implantação foi apontado como principal barreira por 66% das empresas, seguido pela falta de profissionais qualificados.
Esses números sugerem um cenário heterogêneo, em que a adoção é ampla, mas superficial. No setor de alimentos, a situação provavelmente é semelhante: grandes exportadoras com sistemas avançados, exigidos por clientes internacionais, convivendo com pequenas e médias indústrias que ainda operam majoritariamente com registros manuais.
A pressão para mudar vem por vários caminhos. A Lei do Autocontrole exige registros auditáveis e compartilhamento de dados com o serviço de inspeção. As exigências de mercados externos, como a comprovação de uso de antimicrobianos ao longo da vida do animal, demandam rastreabilidade que só se sustenta com sistemas digitais. E a própria concorrência passa a diferenciar quem consegue responder rapidamente a uma crise de quem precisa de dias para reunir documentos.
Um benchmark nacional seria útil para empresas, para o poder público e para as instituições de apoio. Entidades setoriais, universidades e órgãos como o Sebrae e o Senai teriam condições de conduzir um levantamento desse tipo, com metodologia transparente e resultados abertos. Para a política pública, conhecer a distribuição real da maturidade digital ajudaria a desenhar programas de apoio para quem mais precisa, em vez de exigências que só as maiores conseguem cumprir.
Enquanto uma referência nacional não existe, cada empresa pode fazer um exercício simples de autoavaliação. Escolha um lote produzido há três meses e cronometre quanto tempo a equipe leva para reunir todas as informações sobre ele: matérias-primas, fornecedores, registros de controle, resultados laboratoriais e clientes que o receberam. Se a resposta vier em minutos, a empresa está bem posicionada. Se vier em dias, o diagnóstico está feito, e ele vale mais do que qualquer apresentação de fornecedor de software.
Conclusão
A criação de um benchmark independente de maturidade digital parece, à primeira vista, uma notícia de nicho. Mas ela toca num problema central da modernização da segurança dos alimentos: o setor está sendo cobrado a se transformar sem saber exatamente de onde parte.
Isso marca a transição da digitalização como discurso para a digitalização como indicador. Para o Brasil, a oportunidade é construir sua própria régua antes que ela seja imposta de fora, por clientes, auditores ou reguladores estrangeiros. Quem mede o próprio ponto de partida escolhe melhor o caminho.
Referências
- FoodSafetyTech — “Food Safety Tech Launches FSTR to Bring Independent Benchmark Intelligence to the Food Industry” — https://foodsafetytech.com/news_article/food-safety-tech-launches-fstr-food-safety-tech-research-to-bring-independent-benchmark-intelligence-to-the-food-industry/
- FDA — “New Era of Smarter Food Safety” — https://www.fda.gov/food/new-era-smarter-food-safety
- CNI / Cetrel — “Indústria 4.0: 69% das indústrias brasileiras fazem uso de tecnologia digital” — https://www.cetrel.com.br/industria-4-0-69-das-industrias-brasileiras-fazem-uso-de-tecnologia-digital/
- CNI — “A difusão das tecnologias da indústria 4.0 em empresas brasileiras” — https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/c4/26/c42635b7-c3c0-4763-8ed2-69aa33b8a07e/a_difusao_das_tecnologias_da_industria_40_vf.pdf
- MAPA — Lei nº 14.515, de 29 de dezembro de 2022 — https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/L145152022.pdf




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