Toxina em fermentado caseiro, peixe “maquiado” e embalagem “verde” resistência parasitária: os quatro riscos emergentes que a EFSA colocou no radar

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) publicou seu relatório anual sobre riscos emergentes referente a 2025. Dos 55 temas avaliados pela rede de especialistas, 43 foram analisados em profundidade e quatro foram classificados como riscos emergentes: resistência de vermes de animais de produção a antiparasitários; ácido bongcréquico em alimentos fermentados; materiais de contato com alimentos de base biológica e biodegradáveis; e o uso ilícito de um produto chamado “Cafodos” para disfarçar a perda de frescor do pescado. Em comum, todos são perigos já conhecidos, mas com exposição inesperada ou crescente.

Por que importa para o Brasil

Dois dos quatro alertas conversam diretamente com tendências brasileiras.

O primeiro é o ácido bongcréquico, uma toxina produzida pela bactéria Burkholderia gladioli em determinadas condições de fermentação. O gatilho para a classificação foi um caso fatal na América do Norte associado a milho fermentado em casa. Segundo a EFSA, a inspeção sensorial pode não detectar a contaminação e os sintomas podem demorar a aparecer, o que dificulta o diagnóstico. O relatório também menciona condições mais quentes como fator agravante. A recomendação europeia é investir em campanhas de conscientização, treinamento de profissionais de saúde e monitoramento de casos. Num país que vive um momento de valorização de fermentados artesanais e caseiros, a mensagem é clara: tradição e “sempre fizemos assim” não substituem o controle de processo.

O segundo é o Cafodos, uma mistura de citrato de sódio e peróxido de hidrogênio. O produto não “estraga” o peixe; ele maquia. Ao preservar a aparência, permite que pescado com acúmulo de histamina chegue ao consumidor com cara de fresco. A histamina é a causa da intoxicação escombroide, e não é destruída pelo cozimento. Segundo a EFSA, o uso ilícito é difícil de detectar porque o composto se decompõe rapidamente, e novas técnicas analíticas, como espectroscopia Raman e no infravermelho próximo, podem ajudar a revelar casos. O tema foi encaminhado à rede europeia de combate à fraude alimentar para possíveis inspeções direcionadas. Para o Brasil, que amplia sua presença na cadeia de pescado, é um lembrete de que fraude e segurança dos alimentos frequentemente andam juntas.

Os outros dois alertas também merecem atenção. Os materiais de contato de origem biológica e biodegradáveis, cada vez mais comuns como alternativa ao plástico, podem trazer contaminantes ambientais, resíduos de agrotóxicos, alérgenos e misturas complexas cuja migração para o alimento ainda é pouco caracterizada. Sustentabilidade da embalagem não dispensa avaliação de segurança. Já a resistência a antiparasitários em animais de produção, associada pela EFSA a mudanças climáticas, uso excessivo de medicamentos e manejo inadequado de pastagens, é sobretudo um problema de sanidade e bem-estar animal, mas toca a cadeia de alimentos pelo uso de medicamentos e seus resíduos.

O que observar daqui para frente

  • Se a rede europeia de fraude alimentar vai, de fato, realizar inspeções direcionadas em cadeias de pescado de maior risco, e se isso se refletirá em exigências a países exportadores.
  • Como as autoridades brasileiras e os serviços de saúde vão tratar o tema da fermentação caseira e artesanal na comunicação de risco.
  • Se haverá orientação específica sobre materiais biodegradáveis de contato com alimentos, área em que o próprio relatório europeu reconhece pouca experiência de avaliação e regras de verificação ainda pouco desenvolvidas.

Radar de riscos emergentes não é alarme: é a tentativa de enxergar o problema antes que ele vire surto. O perigo nem sempre tem cheiro, cor ou sabor.

Referências

Leia também no Além do Carimbo: “O rótulo diz polvo, o DNA diz lula: como a ciência prova a troca de espécie na carne e no pescado”.

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