O último boletim europeu de vigilância da influenza aviária traz duas notícias que parecem contraditórias — e não são. Na Europa, o vírus está em baixa sazonal: entre 5 de junho e 28 de agosto de 2026, foram 110 detecções de influenza aviária de alta patogenicidade H5N1 em aves, sendo 7 em aves domésticas e 103 em aves silvestres, distribuídas por 12 países. Fora da Europa, porém, o vírus segue ampliando a lista de espécies que consegue infectar. O relatório, publicado em 22 de setembro pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), registra nos Estados Unidos o aumento de fazendas de gado leiteiro afetadas e a primeira detecção em visons-americanos de cativeiro; na Austrália, depois da primeira introdução no continente, o espalhamento em aves silvestres e a passagem para carnívoros terrestres e mamíferos marinhos. Nas Américas, a epidemia continua ativa, com detecção de H7N3 no México.
No mesmo período, foram notificados 15 casos humanos de influenza de origem aviária, sem mortes: um caso de H5N1 em Bangladesh, um de H5N1 no Camboja e 13 casos de H9N2 na China. Todos tinham histórico de exposição a aves ou a ambientes de criação. A avaliação do ECDC é de que o risco representado pelos vírus H5N1 que circulam na Europa continua baixo para a população geral da União Europeia e baixo a moderado para pessoas com exposição ocupacional ou de outro tipo a animais infectados ou ambientes contaminados.
Por que importa para o Brasil
O Brasil conhece de perto o custo da influenza aviária. Em maio de 2025, o país confirmou o primeiro foco de influenza aviária de alta patogenicidade em granja comercial, em Montenegro, no Rio Grande do Sul — episódio que levou parceiros comerciais, entre eles China e União Europeia, a suspender compras de carne de frango brasileira e mostrou como uma única detecção pode mexer com um dos maiores exportadores do mundo.
O boletim europeu traz um recado que vai além do galinheiro. Quando o vírus chega a vacas leiteiras, visons e mamíferos marinhos, aumentam as oportunidades de adaptação a novas espécies — e é isso que mais preocupa as autoridades de saúde pública. O perigo, aqui, não é a carne ou o ovo inspecionados que chegam à mesa: a preocupação central está na circulação do vírus entre animais e na exposição de quem trabalha com eles. Para um país com rebanho leiteiro expressivo, rotas de aves migratórias e extensa fauna silvestre, a vigilância precisa olhar além das aves comerciais. Isso é Saúde Única na prática: o mesmo vírus atravessa a granja, a fazenda, o ambiente e, eventualmente, o trabalhador.
Há também um aprendizado sobre comunicação. “Baixa sazonal” na Europa não significa “problema resolvido”. A queda de detecções no verão europeu é esperada, e a curva costuma subir de novo com as migrações de outono e inverno no Hemisfério Norte.
O que observar daqui para frente
- A evolução das detecções na Europa com a chegada do outono, quando historicamente aumentam os casos em aves silvestres.
- Novos registros em mamíferos, especialmente em bovinos leiteiros fora dos Estados Unidos.
- Eventuais mudanças na avaliação de risco para humanos, hoje baixa para a população geral.
- No Brasil, a manutenção da vigilância ativa em aves comerciais, de subsistência e silvestres mesmo em períodos de calmaria, e a transparência na notificação, que é o que sustenta a confiança dos mercados.
O consumidor vê o alimento. A vigilância vê o caminho que o vírus tenta percorrer antes de chegar perto dele.
Leia também no Além do Carimbo: “Fechar uma zona, não um país: o que a gripe aviária nos EUA e o Codex em Perth ensinam sobre a confiança no comércio de carnes”.
Referências
- ECDC/EFSA — Avian influenza overview June–August 2026 (publicado em 22/9/2026) — https://www.ecdc.europa.eu/en/node/42217
- CNA — Comunicado Técnico: influenza aviária, edição 15 (16/5/2025) — https://www.cnabrasil.org.br/storage/arquivos/pdf/ed-15-ct-cna-influenza-aviaria-16maio2025.pdf





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