700 portas abertas, uma trancada: o que um país realmente exige para comprar a carne de outro

O MAPA convocou para 13 de outubro de 2026 uma coletiva com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, na sede do ministério, em Brasília, para anunciar uma marca: 700 novos mercados internacionais abertos para produtos agropecuários brasileiros desde o início de 2023. Segundo o ministério, o número reflete o fortalecimento das relações comerciais, a diversificação de destinos e a credibilidade do sistema de defesa agropecuária do país. O anúncio chega num momento curioso: desde 3 de setembro, a União Europeia não aceita novas cargas de carnes bovina, suína e de frango, mel, pescado e ovos do Brasil, por considerar insuficientes as garantias brasileiras sobre o controle do uso de antimicrobianos na produção animal — sem ter identificado contaminação nos lotes.

Por que importa para o Brasil

As duas notícias são a mesma história vista de lados opostos. Um mercado não se abre por decreto nem por simpatia diplomática: abre-se quando o país importador aceita que o sistema sanitário do exportador oferece garantias equivalentes às suas. E se mantém aberto enquanto essas garantias continuam sendo demonstradas. A credibilidade sanitária é, ao mesmo tempo, a chave que abriu 700 portas e o requisito que travou a europeia.

Vale ler o número com um pé atrás saudável. “Mercado aberto” significa que um produto específico passou a ter acesso a um país específico — não significa, necessariamente, volume relevante de exportação. A matéria divulgada pelo Canal Rural não detalha produtos, países ou valores, o que impede dizer quanto dessas aberturas já se converteu em comércio.

O que acontece depois que a porta se abre é menos visível — e é aqui que mora o bastidor. A própria Comissão Europeia publica seu programa de auditorias em países de fora do bloco. A versão revisada para julho a dezembro de 2026 prevê, por exemplo, auditoria de saúde animal no Paraguai, com foco em produtos de carne bovina, e na China, para aves, além de auditorias de segurança dos alimentos em países como Bangladesh, Turquia, Vietnã e Malásia, envolvendo resíduos, contaminantes, pescado e moluscos bivalves.

O roteiro, previsto no artigo 120 do Regulamento (UE) 2017/625, é conhecido: questionário prévio enviado às autoridades, análise das respostas, reuniões com os serviços oficiais em nível nacional, regional e local, visitas a estabelecimentos e laboratórios — em geral por uma equipe de dois auditores — e relatório final com recomendações. Os alvos são escolhidos pelo risco: volume exportado, histórico de cargas não conformes nas fronteiras europeias e tipo de produto. Um resultado negativo pode levar a controles reforçados na fronteira e, em último caso, à suspensão das importações.

O Paraguai na lista é um detalhe que interessa ao Brasil: é concorrente direto na carne bovina e segue habilitado a exportar para a UE, assim como Argentina e Uruguai.

O que observar daqui para frente

  • Os resultados da avaliação europeia sobre as garantias brasileiras e se haverá data para a reabilitação — com horizontes diferentes para aves, de ciclo curto, e para bovinos, que exigem garantias ao longo de toda a vida do animal.
  • O detalhamento, pelo MAPA, de quais produtos e países compõem os 700 mercados e de quanto já se transformou em volume exportado.
  • O resultado da auditoria europeia no Paraguai e seus efeitos sobre o tabuleiro sul-americano da carne bovina.
  • A capacidade do sistema brasileiro — oficial e de autocontrole — de produzir provas auditáveis, e não apenas declarações de conformidade.

Para o leitor que está fora do comércio exterior, a lição cabe numa frase: ninguém compra a carne de um país; compra-se a confiança no sistema que a inspecionou.

Leia também no Além do Carimbo: “Fora da lista europeia: a carne brasileira não falhou no laboratório, falhou na prova” e “Auditoria marcada: a UE volta ao frango brasileiro em 2027 — enquanto a porta de 2026 ainda está entreaberta”.

Referências

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