Em duas semanas de outubro, o mesmo tema apareceu em dois extremos do mundo com rostos completamente diferentes. Na China, autoridades multaram em cerca de US$ 19,3 milhões a maior processadora de carne suína do planeta e quatro de seus executivos porque uma análise encontrou o antibiótico lincomicina 37,5 vezes acima do limite permitido. Na Europa, o frango e o mel brasileiros seguem fora do mercado desde 3 de setembro sem que nenhum lote tenha sido reprovado por resíduo — o problema não estava no frango, e sim na capacidade de provar como ele foi criado.
São dois jeitos de cobrar a mesma coisa: o uso responsável de antimicrobianos na produção animal. Um mede o resultado no produto. O outro exige prova do processo. Para um país que exporta proteína animal para mais de uma centena de mercados, entender a diferença entre os dois não é exercício acadêmico. É condição para continuar vendendo — e para proteger a eficácia dos antibióticos que a medicina humana não pode perder.
O que aconteceu na China
Segundo o portal econômico chinês Yicai Global, a Shuanghui Investment and Development — empresa sediada em Luohe, na província de Henan, e braço chinês do WH Group, grupo que também controla a americana Smithfield Foods — divulgou em 10 de outubro de 2026 as penalidades recebidas. O caso nasceu numa inspeção de agosto de 2025 na unidade Shuanghui Beidahuang Food, em Wangkui, na província de Heilongjiang, que encontrou lincomicina 37,5 vezes acima do limite legal em carne suína. A violação envolveu 910 suínos e gerou, segundo as autoridades, ganhos ilícitos de 1,7 milhão de yuans.
A conta final foi muito maior que o ganho. As multas e confiscos somaram 129 milhões de yuans (cerca de US$ 19,3 milhões): 72,5 milhões para a empresa e entidades relacionadas; 37,7 milhões para o presidente do conselho, Wan Hongwei; e 18,7 milhões, somados, para outros três executivos. Participaram do processo a Administração de Supervisão de Mercado de Heilongjiang, o órgão de agricultura e assuntos rurais de Wangkui e os órgãos de pecuária e de supervisão de mercado de Luohe. A Yicai não detalha a causa do resíduo — se houve uso indevido do medicamento ou desrespeito ao período de carência — e este texto não especula sobre isso.
O que aconteceu (e o que ainda pode acontecer) na Europa
Do lado europeu, a lógica é outra. Desde 3 de setembro de 2026, o Regulamento Delegado (UE) 2023/905 exige que carnes, ovos, mel e pescado importados venham de animais que não receberam antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar rendimento, nem antimicrobianos reservados ao tratamento de infecções em humanos. Só exporta quem estiver numa lista de países autorizados — e, em votação de 12 de maio, os Estados-membros aprovaram uma lista sem o Brasil, formalizada depois pelo Regulamento de Execução (UE) 2026/1189. O British Retail Consortium resumiu o ponto central: a Comissão entendeu que o Brasil ainda não havia demonstrado, com sistemas de garantia e rastreabilidade, que cumpre a exigência.
Entre 24 de agosto e 4 de setembro, uma missão europeia auditou os controles brasileiros nas cadeias de aves e de mel. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) divulgou avaliação favorável; em 14 de setembro, segundo a Agência Estadão, o Brasil recebeu comunicação oficial de que havia acordo interno na UE sobre os protocolos considerados críticos. Em 30 de setembro, à margem da reunião de ministros de Comércio do G20, em Milwaukee (EUA), o comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, sinalizou a possível retomada das compras de frango e mel, citando o resultado da auditoria, segundo o jornal goiano O Hoje. O mesmo veículo informa que a decisão final cabe ao Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações (o PAFF), em reunião técnica marcada para 20 e 21 de outubro. Para a carne bovina, o caminho é mais longo: a comprovação exige rastreabilidade de todo o ciclo de vida do animal, e o processo deve levar mais tempo.
Contexto: duas escolas de controle
A UE proibiu antibióticos como promotores de crescimento na alimentação animal em 2006. Resultado: duas décadas depois, a regra deixou de ser apenas interna — o Regulamento (UE) 2019/6, sobre medicamentos veterinários, estendeu a exigência a quem exporta para o bloco, e o Regulamento Delegado 2023/905 transformou o princípio em condição de importação. O que a Europa cobra hoje não é só “não tenha resíduo”. É “mostre que não usou”.
O caso chinês representa a outra escola, mais antiga e mais intuitiva: amostra-se o produto, compara-se com o limite máximo de resíduo, pune-se quem ultrapassa. O que chama atenção não é o método, e sim a dose da punição — e o fato de ela alcançar pessoalmente o presidente e outros executivos, com valores individuais na casa das dezenas de milhões de yuans.
O Brasil, a rigor, pratica as duas. No campo das regras de uso, a Instrução Normativa SDA nº 1, de 13 de janeiro de 2020, proibiu em todo o território nacional a importação, a fabricação, a comercialização e o uso de tilosina, lincomicina e tiamulina como aditivos melhoradores de desempenho — a mesma lincomicina do caso chinês. No campo do resultado, o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC/Animal), hoje amparado pela Portaria MAPA nº 1.266/2025, coleta amostras oficiais de animais enviados ao abate, leite, ovos, mel e pescado. Quando há violação, abre-se investigação na propriedade de origem, o estabelecimento apresenta plano de ação e os lotes seguintes daquele produtor passam a ser amostrados até que cinco lotes consecutivos apresentem resultado conforme.
Conexões invisíveis
À primeira vista, a lição seria simples: a China pune com mão pesada, a Europa exagera na burocracia, e o Brasil está no meio. Não é bem isso. O que poucos percebem é que os dois casos tratam de falhas diferentes — e que nenhum sistema de controle dá conta de ambas usando só uma ferramenta.
Primeira consequência: o que muda operacionalmente. Um resíduo acima do limite é um evento que o laboratório consegue ver. O uso de um antimicrobiano como promotor de crescimento, semanas antes do abate e dentro do período de carência, pode não deixar rastro algum na carcaça. Por isso a exigência europeia empurra o controle para trás na cadeia: receituário veterinário, registro de tratamentos por lote, controle da ração medicada, rastreio de insumos. Isso não é regulação por desconfiança. É reconhecimento de um limite técnico: o perigo nem sempre tem cheiro, cor ou sabor — e, às vezes, nem resíduo.
Segunda consequência: quem ganha e quem perde. Cadeias integradas, com registros centralizados de granja, ração e tratamento, têm mais facilidade de produzir a prova que a Europa pede — e o próprio cronograma europeu reflete isso: aves e mel avançam; bovinos, com histórico individual do nascimento ao abate, ficam para depois. Quem perde, no curto prazo, são os elos com menor capacidade de documentação. O exemplo de Goiás mostra o tamanho do que está em jogo num único estado: segundo a secretaria estadual de agricultura, citada pelo O Hoje, o estado exportou 5,5 mil toneladas de carne de frango à UE entre janeiro e agosto de 2026, gerando US$ 13,2 milhões — receita que, em oito meses, já superava a de qualquer ano anterior da série histórica.
Terceira consequência: o risco e a oportunidade. O caso chinês sinaliza que a responsabilização pode alcançar pessoas, não só empresas. No Brasil, a Lei nº 14.515/2022, que trata dos programas de autocontrole, estabelece que o agente privado deve garantir que seus produtos atendam aos requisitos de inocuidade, identidade, qualidade e segurança — e que cabe à fiscalização verificar o cumprimento do programa. Quem tratar o controle de antimicrobianos como item de checklist, e não como sistema de evidências, estará exposto nas duas frentes: ao laboratório e à auditoria.
E há uma camada que vai além do comércio. O uso de antimicrobianos para fazer o animal crescer mais rápido seleciona bactérias resistentes — e é por isso que a regra europeia protege com mais rigor justamente os antimicrobianos reservados à medicina humana. Por trás do debate sobre listas e certificados está uma pergunta de saúde pública: quanto tempo ainda teremos antibióticos que funcionam?
Implicações para o Brasil
Na regra, alinhado. Na prova, atrasado. O Brasil já proíbe, desde 2020, os principais antimicrobianos que ainda eram usados como melhoradores de desempenho e mantém um plano oficial de monitoramento de resíduos há décadas. O que a decisão europeia de maio expôs foi a distância entre ter a regra e conseguir demonstrar, lote a lote, que ela foi cumprida.
Quem precisa agir: o MAPA, na consolidação dos protocolos de certificação acordados com a UE; as empresas exportadoras, na integração de registros de granja, ração e tratamento ao seu programa de autocontrole; os médicos-veterinários responsáveis pela prescrição, cuja receita passa a ser documento de exportação; e os produtores de mel, cadeia pequena e pulverizada que entrou no mesmo pacote.
Horizonte temporal: curto para aves e mel, se o comitê de 20 e 21 de outubro confirmar a reinclusão — que, até o fechamento deste texto, não estava decidida; longo para a carne bovina, com estimativa de até dois anos. E permanente para o PNCRC: a vigilância de resíduos continua sendo a primeira linha contra casos como o chinês.
Conclusão
A multa na China mostra o custo de errar no produto. A porta fechada na Europa, o custo de não comprovar o processo. Ambos os episódios marcam uma transição crucial: o controle de qualidade mudou. Ele não se resume mais ao que o laboratório encontra na amostra, mas exige saber — e documentar — tudo o que aconteceu antes dela. Para a indústria brasileira, o recado é claro: cada receita veterinária agora é parte do produto final. O consumidor vê o alimento; a inspeção vê o caminho que ele percorreu.
Referências
- Yicai Global — Chinese Local Gov’ts Fine Shuanghui, Its Execs USD19 Million for Excessive Drug Residues in Pork (13/10/2026) — https://www.yicaiglobal.com/news/chinese-local-govts-fine-shuanghui-its-execs-usd19-million-for-excessive-drug-residues-in-pork
- Food Safety News — Chinese pork firm fined after veterinary drug residue found (15/10/2026) — https://www.foodsafetynews.com/2026/10/chinese-pork-firm-fined-after-veterinary-drug-residue-found/
- O Hoje — UE sinaliza retomada da compra de frango e abre caminho para mercado goiano (02/10/2026) — https://ohoje.com/2026/10/02/ue-sinaliza-retomada-da-compra-de-frango-e-abre-caminho-para-mercado-goiano/
- Diário do Comércio (Agência Estadão) — UE avança em negociação e abre caminho para volta do frango brasileiro (17/09/2026) — https://diariodocomercio.com.br/agronegocio/frango-brasileiro-ue-negociacao/
- CompreRural — Brasil conclui etapa decisiva para retomar exportações de frango e mel à União Europeia (08/09/2026) — https://comprerural.com/brasil-conclui-etapa-decisiva-para-retomar-exportacoes-de-frango-e-mel-a-uniao-europeia/
- British Retail Consortium — Brazilian Imports Restrictions: EU Requirements and GB Update (2026) — https://brc.org.uk/news-and-events/news/food/2026/ungated/brazillian-imports-restrictions-eu-uk-update/
- MAPA — Instrução Normativa SDA nº 1, de 13 de janeiro de 2020 — https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/resistencia-aos-antimicrobianos/legislacao/INSTRUONORMATIVAN1DE13DEJANEIRODE2020.pdf
- MAPA/WikiSDA — Manual do PNCRC/Animal — https://wikisda.agricultura.gov.br/pt-br/Inspe%C3%A7%C3%A3o-Animal/Produto-Origem-Animal/manual_pncrc
- Câmara dos Deputados — Lei nº 14.515, de 29 de dezembro de 2022 (texto atualizado) — https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2022/lei-14515-29-dezembro-2022-793587-normaatualizada-pl.html
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