Paulo de Figueiredo Parreiras Horta — antes do SIF, a ciência precisava construir o Estado sanitário

Para compreender as origens da defesa sanitária animal e da inspeção federal brasileira, é preciso recuar a uma época em que as fronteiras entre Medicina, Medicina Veterinária, bacteriologia, saúde pública e administração sanitária ainda estavam sendo desenhadas.

É nesse Brasil que surge Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.

Médico.

Farmacêutico.

Microbiologista.

Micologista.

Pesquisador de Manguinhos.

Especialista formado na tradição pasteuriana.

Chefe de serviço veterinário.

Professor de microbiologia dos animais domésticos.

Diretor de escola de Agricultura e Medicina Veterinária.

Formulador de política de polícia sanitária animal.

Fundador de instituto de saúde pública.

A trajetória pode parecer dispersa quando observada a partir das especializações contemporâneas.

Na verdade, é exatamente o contrário.

Ela representa uma época em que o problema sanitário era visto antes de ser dividido pelas fronteiras profissionais que conhecemos hoje.

O mesmo cientista podia investigar um fungo humano, uma epizootia em bovinos, preparar soros e vacinas, ensinar parasitologia animal, discutir legislação sanitária e organizar um instituto de saúde pública.

Parreiras Horta pertenceu a essa geração.

E talvez seja justamente por isso que sua história seja tão importante para compreender aquilo que viria depois.

Antes de existir um Serviço de Inspeção Federal amadurecido, era necessário construir uma ideia fundamental:

a saúde dos animais, a segurança dos alimentos, a saúde das pessoas e o desenvolvimento econômico pertenciam ao mesmo sistema sanitário.

Parreiras Horta ajudou a construir essa ideia.


Um homem nascido entre dois Brasis

Paulo de Figueiredo Parreiras Horta nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de janeiro de 1884, e faleceu na mesma cidade em 29 de julho de 1961, aos 77 anos. Fontes acadêmicas e genealógicas registram-no como filho de José Freire Parreiras Horta e Paula Margarida de Figueiredo Parreiras Horta. Sua mãe era filha de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros do Império brasileiro.

Essa ascendência é historicamente interessante, mas exige cuidado.

Não devemos concluir automaticamente que sua origem familiar lhe “garantiu trânsito político” ou explicar sua carreira por pertencimento à elite imperial.

Isso seria inferência.

O que os documentos demonstram é outra coisa: Parreiras Horta cresceu em um ambiente familiar ligado à elite intelectual e política brasileira e construiu, depois, uma carreira científica própria em algumas das instituições mais importantes do país.

Seu tempo de formação coincide com uma mudança decisiva.

O Brasil havia acabado de deixar o Império.

A República tinha poucos anos.

A bacteriologia estava revolucionando a Medicina.

Louis Pasteur e Robert Koch haviam transformado a compreensão das doenças infecciosas.

No Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz começava a organizar um dos maiores centros científicos da América Latina.

Foi nesse mundo que Parreiras Horta se formou.


Farmácia, Medicina e Manguinhos

Sua primeira formação foi em Farmácia, concluída em 1903, no Rio de Janeiro.

Dois anos depois, em 1905, graduou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Sua tese de doutoramento recebeu o título:

“Contribuição para o estudo das septicemias hemorrágicas.”

O tema já revela sua orientação intelectual.

Não era essencialmente clínica.

Era microbiológica.

Tratava de processos infecciosos sistêmicos em um período no qual a própria relação entre microrganismos e doença ainda estava sendo incorporada à prática médica.

Antes mesmo de terminar Medicina, em 1904, aproximou-se do Instituto de Manguinhos.

E esse encontro mudaria sua trajetória.


Manguinhos: onde a ciência encontrava os problemas do país

O Instituto de Manguinhos — futuro Instituto Oswaldo Cruz — era algo extraordinário para o Brasil do início do século XX.

Ali ciência não significava apenas laboratório.

Significava resolver problemas nacionais.

Febre amarela.

Peste.

Malária.

Doenças tropicais.

Epizootias.

Produção de soros.

Produção de vacinas.

Parasitologia.

Bacteriologia.

As fotografias preservadas pela Casa de Oswaldo Cruz colocam Parreiras Horta ao lado de nomes como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolpho Lutz, Alcides Godoy, Henrique Aragão e outros pesquisadores daquela geração.

Isso importa porque explica o ambiente intelectual no qual ele se desenvolveu.

A pergunta central não era:

“Isso pertence à Medicina humana ou à Medicina Veterinária?”

A pergunta era:

“Qual é o agente? Como ele se transmite? Como podemos controlá-lo?”

Essa maneira de pensar seria fundamental para a futura construção da defesa sanitária animal.


Paris e a tradição pasteuriana

Entre 1906 e 1907, Parreiras Horta realizou especialização em microbiologia no Instituto Pasteur de Paris.

A passagem é fundamental.

O Instituto Pasteur não representava apenas uma técnica laboratorial.

Representava uma forma de compreender a intervenção sanitária.

Identificar o agente.

Reproduzir experimentalmente o fenômeno.

Desenvolver diagnóstico.

Produzir imunobiológicos.

Aplicá-los à população.

Monitorar o resultado.

Essa lógica poderia servir tanto à Medicina humana quanto à Veterinária.

E, poucos anos depois, Parreiras Horta teria oportunidade de aplicá-la em uma das mais importantes epizootias brasileiras do período.


A micologia e o nome que entrou na taxonomia

De volta ao Brasil, Parreiras Horta consolidou sua atuação em Manguinhos e foi nomeado assistente do Instituto em 1909, trabalhando especialmente com micologia e produção de imunobiológicos.

Sua produção científica nessa área deixou uma marca extraordinariamente duradoura.

Estudando a piedra negra, uma micose superficial dos cabelos, descreveu o fungo associado à enfermidade.

A nomenclatura sofreria revisões posteriores.

Mas seu sobrenome permaneceria definitivamente incorporado à taxonomia:

Piedraia hortae.

Existe algo particularmente simbólico nisso.

Mais de um século depois, estudantes de Micologia em diferentes países podem encontrar o nome hortae sem conhecer a história do pesquisador brasileiro que está por trás dele.

É uma forma incomum de permanência científica.


1911: a epizootia que mudaria sua trajetória

Em 1911, o sul do Brasil enfrentava um problema sanitário devastador.

Bovinos e equinos adoeciam e morriam em Santa Catarina.

A enfermidade chegou a ser interpretada de diferentes maneiras.

Falava-se em peste bovina.

Falava-se em outras doenças infecciosas.

A dimensão econômica era crescente.

Foi então organizada intervenção científica.

Mas aqui precisamos fazer uma correção historiográfica importante.


Quem descobriu a raiva bovina de Santa Catarina?

Biografias posteriores frequentemente atribuem exclusivamente a Parreiras Horta a identificação da enfermidade.

A documentação histórica mostra uma realidade mais complexa.

Antonio Carini, diretor do Instituto Pasteur de São Paulo, já havia identificado a doença como raiva.

O diagnóstico seria posteriormente confirmado por Parreiras Horta em Manguinhos.

Houve inclusive disputa contemporânea pela prioridade científica.

Isso é importante para o nosso método.

Não precisamos transformar um grande personagem em autor exclusivo de tudo o que ocorreu ao seu redor.

Sua contribuição permanece extraordinária mesmo quando dividimos corretamente o mérito.


A verdadeira contribuição de Parreiras Horta em Santa Catarina

Parreiras Horta foi enviado à região, estudou a epizootia e elaborou relatório técnico publicado como:

“A epizootia de Biguassú.”

O trabalho foi apresentado ao diretor do Instituto Oswaldo Cruz e publicado em 1911.

Sua atuação avançou além do diagnóstico.

Ele trabalhou na organização da profilaxia e preconizou vacinação preventiva utilizando técnicas derivadas da tradição de Nocard e Roux.

A Academia Nacional de Medicina registra que, durante a intervenção, organizou produção e distribuição de vacina antirrábica destinada tanto a humanos quanto a animais.

Aqui aparece algo decisivo.

O cientista deixa o laboratório.

Vai ao campo.

Observa a epizootia.

Interpreta sua dinâmica.

Propõe intervenção.

Organiza imunização.

Isso é epidemiologia aplicada antes de a epidemiologia veterinária brasileira possuir a estrutura institucional que conhecemos hoje.


O morcego e uma descoberta que mudaria a epidemiologia da raiva

A epizootia de Santa Catarina seria importante também por outra razão.

Os acontecimentos contribuíram para uma das grandes mudanças da epidemiologia da raiva no continente: compreender que a transmissão para bovinos e equinos poderia ocorrer independentemente do ciclo clássico envolvendo cães.

Os estudos posteriores de Haupt e Rehaag demonstrariam o papel dos morcegos hematófagos.

Nesse sentido, a missão de 1911 integra uma história científica maior.

Mas novamente precisamos ser rigorosos.

Parreiras Horta não deve ser apresentado isoladamente como “descobridor da transmissão da raiva por morcegos”.

A compreensão desse ciclo resultou da contribuição de diferentes pesquisadores ao longo de vários anos.

Seu papel foi decisivo na investigação e resposta à epizootia.

Essa formulação é mais precisa e historicamente mais interessante.


Do Instituto Oswaldo Cruz para o Ministério da Agricultura

A experiência de Santa Catarina aproximou ainda mais Parreiras Horta da Medicina Veterinária de Estado.

Em 8 de março de 1912, deixou Manguinhos para assumir a chefia da Seção Técnica da Diretoria Geral do Serviço de Veterinária do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.

Essa mudança é central para nossa história.

Até então acompanhávamos um cientista.

Agora acompanhamos a passagem do cientista para a administração sanitária.

E isso acontece exatamente no período em que o governo federal começava a organizar de maneira mais sistemática seus serviços veterinários.


Antes do SIF, veio a defesa sanitária organizada

O Serviço de Veterinária federal havia sido instalado no início da década de 1910.

Uma publicação científica histórica registra que, em 31 de dezembro de 1910, o serviço já se distribuía por 11 inspetorias, com capacidade para exames clínicos, microscópicos e bacteriológicos.

Esse dado é fundamental.

Significa que a construção do Estado sanitário veterinário brasileiro começou antes do marco tradicional de 1915 utilizado para a inspeção federal de produtos de origem animal.

Defesa animal e inspeção de alimentos não nasceram exatamente no mesmo momento.

Mas cresceriam profundamente conectadas.

Parreiras Horta estava no núcleo do primeiro processo.


1914: o Brasil no Congresso Internacional de Veterinária

A projeção internacional de Parreiras Horta aparece claramente em 1914.

O governo brasileiro o designou representante no Congresso Internacional de Veterinária realizado em Londres.

Ali apresentou trabalho sobre piroplasmose bovina.

Não é um detalhe menor.

Estamos apenas três anos depois da epizootia catarinense.

O Brasil já envia o chefe de sua seção veterinária para discutir doença animal em um congresso internacional.

Isso demonstra que defesa sanitária estava começando a ser percebida também como diplomacia técnica.


Soros, vacinas e a capacidade de um Estado responder

Documentos de 1915 mostram que o Serviço de Veterinária federal distribuía centenas de milhares de doses de vacinas e soros.

Os Anais do período registram 374.201 doses distribuídas em um único ano de referência.

Esse número ajuda a compreender a transformação em curso.

Um Estado sanitário moderno não existe somente porque publica regulamentos.

Ele precisa ter capacidade operacional.

Laboratórios.

Diagnóstico.

Produção de imunobiológicos.

Profissionais.

Logística.

Registros.

Resposta a surtos.

Parreiras Horta ajudou a construir essa lógica.


E então chega 1915

O ano de 1915 é tradicionalmente considerado o marco institucional da inspeção federal brasileira de produtos de origem animal.

O Decreto nº 11.462 organizou o serviço de inspeção veterinária das fábricas de produtos animais destinadas à exportação ou ao comércio interestadual.

O regulamento tratava de aspectos como:

inspeção de estabelecimentos;

veterinários inspetores;

exame ante mortem;

exame post mortem;

julgamento sanitário;

identificação dos produtos;

e uso de carimbos oficiais.

Aqui precisamos resistir a uma tentação narrativa.


Parreiras Horta criou o SIF?

Não há documentação suficiente para afirmar isso.

Não devemos apresentá-lo como autor individual do Decreto nº 11.462/1915.

Não devemos dizer que “criou o SIF”.

E não devemos atribuir a ele pessoalmente todas as regras iniciais da inspeção.

A relação é mais sofisticada.

Quando o marco de 1915 foi estabelecido, Parreiras Horta já era chefe técnico do Serviço de Veterinária do próprio Ministério da Agricultura e integrava a pequena comunidade científica que discutia sanidade animal, bacteriologia, imunização e organização veterinária federal.

Portanto, sua importância está em pertencer ao ecossistema técnico e institucional que tornou possível a criação daquela estrutura.

Essa afirmação é muito mais defensável.


Uma frase que ajuda a compreender o período

Antes de existir a inspeção federal amadurecida, o Brasil precisou responder a perguntas elementares:

Quem deveria atuar quando uma doença animal atravessasse municípios ou estados?

Quem produziria vacinas?

Quem confirmaria diagnósticos?

Quem poderia interditar ou restringir movimentações?

Qual seria a competência da União?

Qual seria a dos estados?

E como transformar conhecimento científico em autoridade administrativa?

Essas perguntas parecem jurídicas.

Mas eram também epidemiológicas.

Parreiras Horta trabalhou exatamente nesse cruzamento.


Polícia sanitária animal: quando ciência vira poder público

Um dos documentos mais interessantes de sua trajetória surgiu em 1919.

Parreiras Horta e Graccho Cardoso publicaram trabalho intitulado:

“Bases para o Código da Polícia Sanitária Animal e Regulamento das Diretorias de Indústria Pastoril e de Polícia Sanitária.”

Esse título merece atenção.

Polícia sanitária animal.

Não estamos mais falando apenas de estudar doenças.

Estamos falando de estabelecer autoridade para enfrentá-las.

Isso envolve:

notificação;

restrição de trânsito;

medidas compulsórias;

intervenções sobre propriedades;

sacrifício sanitário quando necessário;

controle de produtos;

competência administrativa.

É o momento em que o conhecimento científico se transforma em capacidade estatal.


Talvez aqui esteja uma das raízes mais profundas da fiscalização agropecuária moderna

O conceito de poder de polícia sanitária continua absolutamente atual.

Um agente público precisa, em determinadas situações, tomar decisões que:

limitam atividades privadas;

impõem medidas;

interrompem fluxos;

geram custos;

protegem interesses coletivos.

Essas decisões precisam de base científica.

Mas precisam também de legitimidade jurídica.

A construção dessa união entre:

ciência + norma + autoridade pública

é uma das grandes histórias do século XX sanitário brasileiro.

Parreiras Horta pertence à geração que começou a sistematizá-la.


1917: formar veterinários para um país que precisava deles

Em 1917, Parreiras Horta tornou-se professor catedrático de Microbiologia e Parasitologia dos Animais Domésticos na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária — ESAMV.

A nomeação é profundamente coerente.

O país precisava de profissionais capazes de:

identificar agentes infecciosos;

compreender parasitos;

investigar epizootias;

interpretar exames;

produzir imunobiológicos;

relacionar doença animal e saúde pública.

Ou seja:

o laboratório precisaria entrar definitivamente na formação do médico-veterinário.


A Primeira Guerra Mundial

Em 1918, com o Brasil envolvido na Primeira Guerra Mundial, Parreiras Horta integrou a Missão Médica Brasileira na França.

Foi comissionado no posto de tenente-coronel médico e trabalhou em Montpellier, inclusive em atividades laboratoriais associadas à Faculdade de Medicina.

O episódio mostra novamente a amplitude de sua atuação.

Bacteriologista de animais.

Médico.

Militar.

Pesquisador.

Professor.

A divisão contemporânea das especialidades simplesmente não descreve adequadamente aqueles profissionais.


1918: Academia Nacional de Medicina

No mesmo período, sua produção científica alcançou reconhecimento máximo na Medicina brasileira.

Parreiras Horta foi eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina em 27 de junho de 1918 e tomou posse em 1º de agosto daquele ano.

Sua memória de ingresso tratava de um novo micetoma produtor de grãos negros.

Décadas depois, tornar-se-ia membro emérito.

Hoje é o patrono da Cadeira nº 52 da Academia Nacional de Medicina.

Isso dimensiona sua posição científica.

Ele não era apenas um administrador veterinário.

Era um pesquisador reconhecido no mais alto círculo institucional da Medicina brasileira.


1919: diretor de uma escola que ajudaria a formar a Veterinária nacional

Ao regressar ao Brasil, Parreiras Horta assumiu a direção da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária.

A historiografia institucional registra sua gestão principalmente entre 1919 e 1926, embora com períodos de direção interina exercida por outros professores durante ausências.

Essa etapa é decisiva.

Porque agora ele não está apenas ensinando uma disciplina.

Está ajudando a organizar uma instituição.

Currículo.

Professores.

Ensino experimental.

Laboratórios.

Formação profissional.

A atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro reconhece essa trajetória institucional como parte de sua história.


Do laboratório para a formação de um corpo técnico nacional

Essa talvez seja uma das conexões mais relevantes com o futuro SIF.

Uma estrutura federal de inspeção não pode crescer sem gente qualificada.

É possível publicar um regulamento na capital do país.

Mas alguém precisa estar no frigorífico.

No porto.

Na fronteira.

No laboratório.

Na propriedade.

E esse profissional precisa compreender aquilo que observa.

Por isso a formação acadêmica não é acessória à fiscalização.

É parte da infraestrutura sanitária.

Parreiras Horta ajudou a fortalecer exatamente essa base.


Sergipe: levar Manguinhos para além de Manguinhos

Em 1922, Sergipe decidiu criar uma instituição científica estadual.

A Lei nº 836, de 14 de novembro de 1922, criou o Instituto que viria a receber o nome de Parreiras Horta.

A convite do governador Maurício Graccho Cardoso, o cientista transferiu-se para Aracaju para organizar a instituição.

O instituto seria inaugurado em 5 de maio de 1924.

E sua missão era extraordinariamente ampla.

Laboratório de análises clínicas.

Análises bacteriológicas.

Análises químicas.

Produção de vacina antivariólica.

Vacinação antirrábica.

Pesquisa científica.

Em outras palavras:

uma versão regional do paradigma de ciência aplicada à saúde pública que Parreiras Horta havia conhecido em Manguinhos.


Interiorizar ciência também é política sanitária

Esse aspecto merece ser valorizado.

No início do século XX, a capacidade científica brasileira estava extremamente concentrada.

Rio de Janeiro.

São Paulo.

Alguns poucos centros.

Criar um instituto laboratorial em Aracaju significava reduzir a distância entre o problema e a capacidade de diagnosticá-lo.

Isso continua sendo um princípio moderno.

Quanto mais distante o laboratório, maior pode ser:

o tempo de resposta;

a dificuldade de transporte;

a perda de material;

o atraso na intervenção.

Parreiras Horta participou, portanto, de uma política de descentralização da capacidade sanitária.


O prédio que se tornou memória científica

O antigo edifício do Instituto Parreiras Horta, em Aracaju, foi posteriormente reconhecido como patrimônio cultural.

A Prefeitura registra que o prédio, inaugurado em 1924, foi tombado em 2008.

Também reconhece o Instituto como marco inicial da pesquisa científica institucional em Sergipe.

Isso significa que o legado de Parreiras Horta não permaneceu apenas em artigos.

Ele deixou:

uma instituição;

um edifício;

uma tradição laboratorial;

e um nome incorporado à história sanitária de um estado.


A carreira humana continuou

Depois de deixar Sergipe, Parreiras Horta regressou ao Rio de Janeiro.

Sua trajetória passou novamente pela Medicina humana.

Em 1930, assumiu a cátedra de Clínica Dermatológica e Sifilográfica da Faculdade Fluminense de Medicina, permanecendo nessa área até a aposentadoria compulsória por idade, em 1954.

À primeira vista, alguém poderia perguntar:

o que isso tem a ver com inspeção veterinária?

A resposta ajuda a compreender seu tempo.

Para Parreiras Horta, provavelmente não existia a divisão radical que fazemos hoje entre os mundos.

Micologia humana.

Bacteriologia.

Doença animal.

Vacina.

Dermatologia.

Saúde pública.

Tudo pertencia a uma mesma ciência das doenças.


Uma biografia que antecipa o conceito de Saúde Única

Seria anacrônico afirmar que Parreiras Horta “praticava One Health” no sentido institucional contemporâneo.

O termo e seu arcabouço atual surgiram muito depois.

Mas podemos dizer algo historicamente mais preciso:

sua trajetória exemplifica uma tradição científica anterior à especialização rígida entre saúde humana, saúde animal e ambiente.

Ele estudava agentes infecciosos independentemente da fronteira profissional.

Investigava epizootias porque afetavam animais e economia.

Produzia vacina porque doença exigia prevenção.

Trabalhava com micologia humana porque o agente biológico continuava sendo objeto científico.

Isso se aproxima extraordinariamente da lógica que hoje chamamos de Saúde Única.


E qual é, afinal, sua relação com o SIF?

Essa pergunta precisa ser respondida com precisão.

Parreiras Horta não deve ser colocado na mesma categoria institucional de Otto de Magalhães Pecego, Miguel Cione Pardi, Iacir Francisco dos Santos, Elmo Rampini de Souza ou José Christovam Santos.

Esses profissionais estiveram ligados diretamente à estrutura de inspeção de produtos de origem animal em diferentes momentos de seu desenvolvimento.

Parreiras Horta pertence a uma camada anterior.

Sua relação é de fundação intelectual e institucional do ambiente sanitário.

Ele ajudou a consolidar:

microbiologia;

diagnóstico;

produção de imunobiológicos;

Serviço de Veterinária;

polícia sanitária animal;

formação veterinária;

laboratório público;

administração sanitária.

O SIF cresceria sobre esse terreno.


Não é a “certidão de nascimento” do SIF. É algo anterior.

Essa distinção pode tornar o artigo ainda mais forte.

O Decreto de 1915 é um documento fundamental na genealogia do Serviço de Inspeção Federal.

Mas Parreiras Horta ajuda a entender por que um decreto como aquele se tornou possível.

Antes da lei, precisou existir uma cultura técnica capaz de dizer:

doenças têm agentes;

doenças podem ser diagnosticadas;

animais podem disseminá-las;

produtos animais precisam de controle;

o Estado precisa possuir veterinários;

o Estado precisa de laboratórios;

o Estado precisa agir acima das fronteiras municipais.

Esse é o terreno em que a inspeção federal nasce.


A conexão Parreiras Horta → Otto Pecego

Agora começa a aparecer uma genealogia ainda mais profunda para a série do Além do Carimbo.

Parreiras Horta pertence à geração que organiza a ciência veterinária de Estado.

Otto de Magalhães Pecego pertence à geração seguinte, que encontra uma estrutura federal nascente e ajuda a profissionalizar a inspeção de produtos de origem animal.

Depois vêm Pardi, Iacir, Elmo e José Christovam.

Não é uma linha de sucessão pessoal.

É uma linha de maturação institucional.


Uma possível genealogia da inspeção brasileira

Podemos começar a enxergar seis grandes movimentos.

Parreiras Horta — o Estado aprende que sanidade animal precisa de ciência.

Laboratório.

Bacteriologia.

Vacinas.

Polícia sanitária.

Ensino veterinário.

Otto Pecego — a inspeção começa a adquirir corpo profissional.

Inspetorias.

Carreira.

Fiscalização regional.

Ensino de inspeção.

Miguel Cione Pardi — a inspeção se transforma em ciência aplicada.

Epidemiologia.

Dados.

Tecnologia da carne.

Formação acadêmica.

Iacir Francisco dos Santos — a ciência se transforma em método operacional.

Diagnóstico.

Padronização.

Treinamento.

Decisão sanitária.

Elmo Rampini de Souza — método e tecnologia industrial passam a caminhar juntos.

Processamento.

Higiene.

Conservação.

Formação tecnológica.

José Christovam Santos — o padrão transforma a estrutura industrial.

Federalização.

Engenharia sanitária.

Organização das plantas.

Autoridade estatal.

Essa sequência não pretende reduzir personagens complexos a uma palavra.

Mas ajuda a contar uma história extraordinária:

como uma instituição aprende.


Um cuidado importante: não transformar genealogia em causalidade absoluta

Também precisamos evitar uma narrativa simplificadora:

“Sem Parreiras Horta, não existiria o SIF.”

Isso seria impossível de demonstrar.

Instituições são construções coletivas.

Outros personagens foram fundamentais:

Oswaldo Cruz.

Alcides Godoy.

Arthur Neiva.

Adolpho Lutz.

Graccho Cardoso.

Alcides Miranda.

Moniz de Aragão.

e muitos outros.

O que podemos afirmar é mais sólido:

Parreiras Horta integrou uma geração científica e administrativa que forneceu parte essencial das bases intelectuais, laboratoriais e veterinárias sobre as quais os serviços federais de sanidade animal e inspeção se desenvolveriam.

Isso é história.


A ciência transformada em instituição

Talvez esse seja o conceito que melhor resume sua vida.

Parreiras Horta não apenas publicou trabalhos.

Transformou conhecimento em estruturas.

Da micologia:

veio conhecimento científico.

Da epizootia:

veio intervenção de campo.

Da intervenção:

veio experiência administrativa.

Do Serviço de Veterinária:

veio organização estatal.

Da universidade:

veio formação profissional.

De Sergipe:

veio um instituto.

Essa sequência é extraordinária.

Porque ciência produz legado duradouro quando deixa de depender exclusivamente do cientista.

Quando vira:

laboratório.

Curso.

Serviço.

Norma.

Instituição.


1961: o fim de uma trajetória e a permanência do nome

Paulo de Figueiredo Parreiras Horta faleceu no Rio de Janeiro em 29 de julho de 1961.

Mas poucas carreiras científicas brasileiras daquele período deixaram o nome preservado em tantos lugares.

Piedraia hortae.

Instituto Parreiras Horta.

Cadeira nº 52 da Academia Nacional de Medicina.

Patronato em academias médicas.

Memória da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária.

Arquivos da Fiocruz.

Isso diz algo.

Os nomes permanecem quando uma geração posterior decide que determinada trajetória merece ser lembrada.


O verdadeiro legado de Parreiras Horta

Sua contribuição pode ser compreendida em sete dimensões.

A primeira é científica.

Foi bacteriologista e micologista formado dentro da revolução pasteuriana.

A segunda é veterinária.

Investigou epizootias, piroplasmose, imunização e doenças animais.

A terceira é epidemiológica.

Saiu do laboratório para investigar problemas sanitários em campo.

A quarta é institucional.

Chefiou estrutura técnica do Serviço de Veterinária federal.

A quinta é normativa.

Participou do debate sobre polícia sanitária animal e organização administrativa da defesa sanitária.

A sexta é formadora.

Foi professor e diretor da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária.

A sétima é descentralizadora.

Ajudou a implantar em Sergipe uma estrutura laboratorial e de produção de imunobiológicos fora dos grandes centros tradicionais.


Antes do carimbo veio o microscópio

Talvez exista uma imagem capaz de sintetizar toda essa história.

Hoje, quando pensamos em inspeção, pensamos no carimbo.

No selo.

No SIF.

Na identificação sobre o produto.

Mas antes que aquele carimbo tivesse significado, alguém precisou responder perguntas mais fundamentais.

O que causa a doença?

Como demonstramos sua presença?

Como sabemos que um animal está infectado?

Como impedimos que a enfermidade se espalhe?

Como produzimos imunidade?

Como organizamos veterinários?

Quem possui autoridade para agir?

Essas perguntas foram respondidas progressivamente por uma geração de cientistas.

Parreiras Horta estava entre eles.

Por isso, talvez sua relação com o Além do Carimbo possa ser expressa em uma frase:

antes do carimbo existir como símbolo de confiança, foi preciso construir a ciência que tornaria essa confiança possível.


Além do Carimbo

Quando um consumidor vê hoje um selo de inspeção, ele vê o fim de uma longa história.

Não vê Manguinhos em 1904.

Não vê um jovem médico diante de culturas bacterianas.

Não vê o Instituto Pasteur de Paris.

Não vê cavalos e bovinos morrendo em Santa Catarina.

Não vê um cientista viajando para investigar uma epizootia.

Não vê as primeiras inspetorias veterinárias.

Não vê centenas de milhares de doses de vacinas sendo distribuídas.

Não vê professores tentando formar uma nova profissão.

Não vê debates sobre quem deveria possuir autoridade sanitária.

Não vê um laboratório sendo criado em Aracaju.

Mas cada uma dessas histórias pertence ao caminho que tornou possível a existência de um sistema sanitário nacional.

Paulo de Figueiredo Parreiras Horta viveu justamente quando esse caminho ainda estava sendo aberto.

Ele não foi simplesmente um médico interessado em animais.

Não foi simplesmente um veterinário de Estado.

Não foi simplesmente um microbiologista.

Foi produto de uma época em que todas essas dimensões ainda faziam parte da mesma missão:

compreender a doença para que o Estado pudesse proteger a sociedade.

Décadas depois, outras gerações transformariam esse conhecimento em regulamentos, linhas de inspeção, manuais, frigoríficos modernos, auditorias, laboratórios, programas de autocontrole e sistemas informatizados.

Mas antes disso tudo,

alguém precisou construir o laboratório.

Alguém precisou formar profissionais.

Alguém precisou levar ciência até o campo.

Alguém precisou demonstrar que sanidade animal era uma responsabilidade pública.

Parreiras Horta pertenceu a essa geração.

E talvez por isso sua história esteja tão próxima daquilo que procuramos revelar neste projeto:

antes de existir o carimbo, precisou existir o conhecimento.

Esse é o legado de Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.

Um dos homens que ajudaram a construir as fundações científicas daquilo que hoje existe além do carimbo.


Fontes e referências consultadas

ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta. Biografia institucional com informações sobre atuação na epizootia de Santa Catarina, cátedra na ESAMV, participação na Missão Médica Brasileira na França, direção da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, produção científica e trajetória acadêmica.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ — CASA DE OSWALDO CRUZ. Base Arch. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta (1884–1961). Registro arquivístico identifica sua atuação como pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, médico micologista, participante da Missão Médica Brasileira na França, fundador e diretor do Instituto Parreiras Horta e membro da Academia Nacional de Medicina.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ — CASA DE OSWALDO CRUZ. Acervo iconográfico do Instituto Oswaldo Cruz. Fotografias históricas documentam Parreiras Horta ao lado de Oswaldo Cruz e outros pesquisadores da geração de Manguinhos.

ACADEMIA FLUMINENSE DE MEDICINA — ACAMERJ. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta. Fonte para produção científica em micologia, Piedraia hortae, estudos veterinários, epizootia de Santa Catarina e atuação no Ministério da Agricultura.

ACADEMIA SERGIPANA DE MEDICINA. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta. Registra sua atuação na epizootia de raiva, Serviço de Veterinária, ESAMV, Academia Nacional de Medicina, Instituto Parreiras Horta e trajetória posterior.

NEIVA, Cícero. Adolfo Lutz e a Medicina Veterinária. Revista do Instituto Adolfo Lutz, 1955. Fonte histórica sobre a instalação do Serviço de Veterinária federal, suas inspetorias e a participação de Parreiras Horta no diagnóstico da epizootia catarinense.

HORTA, Paulo de Figueiredo Parreiras. A epizootia de Biguassú. 1911. Relatório sobre a epizootia catarinense, referenciado na historiografia da Fiocruz e em estudos posteriores sobre a raiva transmitida por morcegos.

CIDASC — Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina. Monografia histórica sobre raiva. Registra a participação de Antonio Carini e Parreiras Horta no diagnóstico da epizootia e as medidas profiláticas adotadas. Fundamental para corrigir a atribuição exclusiva da descoberta a Horta.

ANAIS DA REPÚBLICA — 1915. Registro da atuação do Serviço de Veterinária, distribuição de vacinas e soros e representação brasileira por Parreiras Horta no Congresso Internacional de Veterinária de Londres.

SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA — A Lavoura. 1914. Registra Parreiras Horta como chefe da Seção Técnica do Serviço de Veterinária do Ministério da Agricultura e representante brasileiro no Congresso Internacional de Veterinária.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA — Humanos. Parreiras Horta: o ideário da medicina iluminista em terras de Sergipe d’El Rei. Fonte para a relação com Graccho Cardoso e a publicação, em 1919, de Bases para o Código da Polícia Sanitária Animal e Regulamento das Diretorias de Indústria Pastoril e de Polícia Sanitária.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ — Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil. Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Registra Parreiras Horta entre os docentes e como diretor da instituição entre 1919 e 1926, com períodos de direção interina.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ARACAJU. Prédio Original do Instituto Parreiras Horta. Registra a criação do Instituto pela Lei nº 836/1922, inauguração em 5 de maio de 1924, funções laboratoriais e de vacinação e tombamento do edifício.

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SERGIPE. Histórico do Instituto Parreiras Horta. Registra sua criação, inauguração, funções iniciais e participação de Paulo Parreiras Horta como primeiro dirigente.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS. Estudo histórico sobre Aracaju e o Instituto Parreiras Horta. Descreve a instituição como combinação de Instituto Pasteur, Instituto Vacinogênico e laboratório de análises clínicas, bacteriológicas e químicas.

Fonte genealógica complementar. Registros familiares para filiação, relação com o Visconde de Ouro Preto e datas de nascimento e falecimento. Utilizada apenas como fonte auxiliar, não como base principal para as conclusões científicas ou institucionais.

Comentários

Deixe um comentário

Veja também

Ver tudo [ -> ]

Descubra mais sobre ALÉM DO CARIMBO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo