Enquanto o Brasil ainda negocia a volta do frango e do mel ao mercado europeu, Bruxelas já marcou a próxima visita. O Programa de Auditorias Alimentares e Veterinárias da Comissão Europeia para 2027, divulgado em 11 de setembro de 2026, inclui o Brasil entre os 29 países de fora da União Europeia que receberão auditores — com uma auditoria dedicada aos controles de segurança da carne de aves e outra sobre resíduos de agrotóxicos e contaminantes em frutas e hortaliças.
O fato
O programa prevê 144 controles no mundo, cerca de 55% deles fora da UE: 58 auditorias presenciais em países terceiros, 12 em países candidatos ao bloco, 8 em postos de controle fronteiriço dentro da própria UE e aproximadamente 30 avaliações remotas, feitas a partir de documentos. A Comissão escolhe os alvos pelo risco associado às exportações de cada país, considerando o volume comercializado, o histórico de cargas não conformes barradas na fronteira europeia e o nível de risco de cada categoria de produto. E a tendência declarada é de aumento: a proporção de controles em países de fora do bloco está crescendo.
O anúncio chega num momento delicado. Desde 3 de setembro de 2026, o Brasil está fora da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para a UE, por não ter comprovado de forma adequada o cumprimento das novas regras europeias sobre antimicrobianos — que vedam o uso, na produção animal, de substâncias para promover crescimento e de antimicrobianos reservados ao tratamento humano. Segundo o portal Mercado&Consumo, uma missão europeia avaliou as cadeias de aves e de mel entre 24 de agosto e 4 de setembro; em 14 de setembro, o Brasil recebeu comunicação oficial de que o bloco chegou a um acordo interno sobre os protocolos para a retomada. O secretário-executivo do MAPA, Cleber Soares, afirmou que o país ainda aguarda o detalhamento desses protocolos para avançar. Não há data para a volta dos embarques.
Por que importa para o Brasil
Uma auditoria de país importador não inspeciona frango por frango. Ela avalia o sistema: se a autoridade competente tem base legal, pessoal, laboratórios e procedimentos para garantir, de forma verificável, aquilo que o certificado sanitário afirma. Em outras palavras, a pergunta não é apenas “o produto é seguro?”, mas “como vocês sabem e como provam?”. Foi essa a lição do episódio dos antimicrobianos: a carne brasileira não foi barrada por um resultado de laboratório, mas pela falta de comprovação documental de uma garantia.
A ciência ajuda a entender por que a Europa insiste no tema. Uma revisão publicada em 2025 no Journal of Xenobiotics por pesquisadores portugueses mostra que o uso de antibióticos na avicultura deixa marcas duradouras: reduz a diversidade e reorganiza a microbiota intestinal das aves, e os genes de resistência se espalham para o ar, a água e a cama do aviário, cruzando fronteiras ecológicas. É uma revisão qualitativa, sem dados brasileiros nem números de prevalência — mas reforça a lógica de Uma Só Saúde que sustenta a regra europeia: resistência antimicrobiana na granja é problema de saúde pública, não só de produção.
O que observar daqui para frente
Três pontos merecem acompanhamento. Primeiro, o conteúdo dos protocolos europeus para a reinclusão do Brasil e a forma como o MAPA vai demonstrar o controle do uso de antimicrobianos ao longo da cadeia. Segundo, o desenho da auditoria de 2027 em carne de aves, cujo escopo detalhado é tratado com a autoridade brasileira antes da visita e indicará o que será verificado. Terceiro, a capacidade do sistema de inspeção federal e das empresas exportadoras de transformar controles que já existem em evidência auditável — registros, rastreabilidade de insumos e resultados de monitoramento acessíveis e coerentes.
Quem se antecipar chega à auditoria com a prova pronta. Quem esperar o auditor vai descobrir, na reunião de encerramento, o que faltou documentar.
Leia também no Além do Carimbo: “Fora da lista europeia: a carne brasileira não falhou no laboratório, falhou na prova” e “Portas que abrem, portas que fecham: UE, Estados Unidos e Indonésia e as barreiras sanitárias em movimento”.
Referências
- Comissão Europeia (DG SANTE) — Food and Veterinary Audits Programme 2027 — https://food.ec.europa.eu/document/download/dbf5cd4d-c31a-441c-a38a-89cb05a1b465_en?filename=hfaa_prog_en_2027.pdf
- AGRINFO — EU Food and Veterinary Audits Programme 2027 (11/09/2026) — https://agrinfo.eu/book-of-reports/eu-food-and-veterinary-audits-programme-2027/
- Mercado&Consumo — UE avança em negociação e abre caminho para volta do frango brasileiro (17/09/2026) — https://mercadoeconsumo.com.br/17/09/2026/economia/ue-avanca-em-negociacao-e-abre-caminho-para-volta-do-frango-brasileiro/
- Compre Rural — Brasil conclui etapa decisiva para retomar exportações de frango e mel à União Europeia (08/09/2026) — https://comprerural.com/brasil-conclui-etapa-decisiva-para-retomar-exportacoes-de-frango-e-mel-a-uniao-europeia/
- Gonçalves, M.; Vale, N.; Martins da Costa, P.; Silva, P. (2025). Xenobiotics and Broiler Microbiota: Molecular Insights into Bacterial Antimicrobial Resistance and Food Safety Implications for Human Health. Journal of Xenobiotics, 15(4), 129. DOI: 10.3390/jox15040129 — https://doaj.org/article/3c3cf89b06ef4a058ff95b4c2ca99e85





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