43,7 milhões de doentes por ano: o plano das Américas para um problema que quase nunca vira manchete

Pense em todas as pessoas que vivem no Canadá. Agora imagine que um número parecido de pessoas, todos os anos, adoeça nas Américas depois de comer ou beber algo contaminado. A maioria se recupera em poucos dias, culpa “alguma coisa que comeu” e segue a vida. Cerca de 78 mil não se recuperam.

Essa é a estimativa que a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) colocou no centro de sua nova estratégia regional: 43,7 milhões de pessoas afetadas por doenças transmitidas por alimentos a cada ano, e aproximadamente 78 mil mortes. São números que quase nunca viram manchete, porque o adoecimento é disperso, silencioso e, muitas vezes, nem chega a ser notificado. O surto que aparece no jornal é a ponta visível de um problema que vive, majoritariamente, abaixo da linha d’água.

A pergunta que a estratégia tenta responder é simples de formular e difícil de executar: o que um país precisa ter funcionando para identificar um risco antes que as pessoas adoeçam?

O que mudou

Em 30 de setembro de 2026, a OPAS anunciou a adoção da Estratégia e Plano de Ação sobre Inocuidade dos Alimentos 2026–2031 pelo seu 63º Conselho Diretor, a instância em que os Estados-membros da organização deliberam sobre políticas regionais de saúde. O documento foi construído com coordenação do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (PANAFTOSA), sediado no Brasil.

A estratégia se organiza em três linhas de ação. A primeira é fortalecer os sistemas nacionais de segurança dos alimentos ao longo de toda a cadeia, com melhor governança, políticas, regulamentos, vigilância, serviços laboratoriais e coordenação entre setores. A segunda é institucionalizar a análise de risco baseada em ciência como prática rotineira de tomada de decisão, e não como exercício ocasional. A terceira é aprimorar a coordenação regional por meio de troca de informações, preparação e mecanismos de cooperação mais robustos.

O documento traz metas mensuráveis até 2031. O número de países e territórios que publicam boletins de vigilância deve passar de 8 para 15. Os que adotam inspeções de alimentos baseadas em risco, também de 8 para 15. Os que usam avaliação de risco para apoiar decisões, de 9 para 15. E a participação em mecanismos regionais de cooperação deve subir de 19 para 27.

A OPAS também nomeia os riscos emergentes que pretende enfrentar: micotoxinas associadas a fatores ambientais e climáticos, rupturas na cadeia do frio e nos sistemas de água, fraude alimentar, novas tecnologias de alimentos e a disseminação rápida de perigos entre fronteiras em razão da expansão do comércio. A abordagem declarada é a de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental.

O diretor da OPAS, o brasileiro Jarbas Barbosa, resumiu a lógica do plano ao afirmar que alimento inseguro é uma ameaça evitável, mas que a prevenção exige sistemas fortes, capazes de identificar riscos cedo e agir antes que as pessoas adoeçam.

Contexto nacional e global

A estratégia regional se encaixa numa arquitetura global. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a primeira estimativa mundial da carga de doenças transmitidas por alimentos: cerca de 600 milhões de casos e 420 mil mortes por ano, com crianças menores de cinco anos carregando uma parcela desproporcional. Em 2022, a Assembleia Mundial da Saúde adotou a Estratégia Global de Segurança dos Alimentos da OMS para 2022–2030, que já apontava a vigilância baseada em dados e a análise de risco como eixos centrais. A estratégia das Américas é, em boa medida, a tradução regional desse compromisso.

O Codex Alimentarius, programa conjunto da FAO e da OMS, fornece a base técnica: princípios de análise de risco, diretrizes de higiene e critérios microbiológicos que os países incorporam às suas legislações. Na sua 49ª sessão, o Codex atualizou diretrizes para Salmonella e Campylobacter em frango e para Listeria monocytogenes em alimentos prontos para consumo.

Quem já trilhou esse caminho mostra o que muda quando a vigilância vira sistema. Os Estados Unidos mantêm, desde 1996, a rede FoodNet, que acompanha de forma ativa infecções por patógenos de origem alimentar em áreas definidas do país e permite medir tendências ano a ano. A União Europeia, por meio da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), publica anualmente o relatório One Health de zoonoses, que cruza dados de alimentos, animais e casos humanos. O resultado não é ausência de surtos; é a capacidade de enxergá-los, medi-los e responder com base em evidência.

O Brasil tem peças importantes desse quebra-cabeça: a vigilância epidemiológica das doenças de transmissão hídrica e alimentar no Ministério da Saúde, a vigilância sanitária coordenada pela ANVISA, a inspeção de produtos de origem animal sob o MAPA, os laboratórios centrais de saúde pública e os laboratórios federais de defesa agropecuária. O desafio, como em boa parte da região, está menos na existência das peças e mais na forma como elas se conectam.

Conexões invisíveis

A primeira consequência é operacional. Uma meta como “inspeções baseadas em risco” parece técnica, mas muda a rotina de quem fiscaliza. Inspecionar por risco significa decidir onde ir, com que frequência e com qual profundidade a partir de dados: histórico do estabelecimento, tipo de produto, volume, população exposta. Sem dados confiáveis e integrados, a inspeção baseada em risco vira apenas inspeção com outro nome. A estratégia, portanto, é também um programa de dados.

A segunda consequência é sobre quem ganha e quem perde. Ganham os países e setores que já produzem informação organizada, porque terão mais facilidade para demonstrar resultados e atrair cooperação técnica. Ganham os laboratórios, que a OPAS coloca no centro da detecção rápida. Perdem espaço os sistemas que dependem de papel e de comunicação informal entre órgãos, porque a régua regional passa a medir exatamente a capacidade de compartilhar informação.

A terceira consequência envolve risco e oportunidade. O que poucos percebem é que a lista de riscos emergentes da OPAS conversa diretamente com a realidade brasileira: micotoxinas e clima, cadeia do frio, fraude. Num país continental, com longas distâncias e calor intenso em boa parte do ano, a cadeia do frio não é detalhe logístico; é barreira de segurança. O perigo nem sempre tem cheiro, cor ou sabor.

E aqui está a surpresa que reorganiza a leitura: o número que mais importa na estratégia talvez não seja 43,7 milhões, mas 8. Apenas 8 países e territórios da região publicam boletins de vigilância. Isso significa que a estimativa de doentes é, ela própria, construída com dados incompletos. O plano é ambicioso, exceto pelo fato de que não se pode reduzir com precisão aquilo que ainda não se consegue medir com precisão. A pergunta que fica aberta é: quem vai financiar a capacidade de medir?

Implicações para o Brasil

O Brasil chega a essa estratégia em posição singular. Tem um dos maiores sistemas de inspeção de produtos de origem animal do mundo, uma rede laboratorial ampla e um histórico de vigilância de doenças de transmissão hídrica e alimentar. Ao mesmo tempo, convive com a subnotificação típica desse tipo de agravo: muitos casos não chegam ao serviço de saúde, e muitos surtos não têm o alimento identificado. O anúncio da OPAS não detalha quais países compõem a linha de base das metas, o que torna prudente não presumir em que lado da régua o Brasil está em cada indicador.

O que se pode afirmar é que a estratégia reforça direções que o país já vem tomando. A Lei do Autocontrole (Lei nº 14.515/2022) aponta para uma fiscalização que verifica sistemas, e não apenas produtos. A abordagem baseada em risco aparece cada vez mais nas normas do MAPA e da ANVISA. E a pressão externa, como a exigência europeia de provas auditáveis sobre o uso de antimicrobianos, mostra que dados confiáveis já são condição de acesso a mercados.

Quem precisa agir? O Ministério da Saúde, a ANVISA e o MAPA, para integrar dados de vigilância humana, sanitária e agropecuária num mesmo raciocínio de Saúde Única. Os estados e municípios, que executam boa parte da vigilância e da inspeção. A indústria, que gera dados de autocontrole capazes de alimentar sistemas de risco. As universidades, que formam os profissionais que vão operar esses sistemas.

Há ainda uma oportunidade de protagonismo. O Brasil sedia o PANAFTOSA, que coordenou a elaboração da estratégia, e tem experiência acumulada em temas que a OPAS agora coloca no centro da agenda, como inspeção de produtos de origem animal em larga escala e programas de controle de resíduos. Isso permite ao país não apenas cumprir metas, mas oferecer cooperação técnica a vizinhos com sistemas menos estruturados, o que também fortalece a segurança dos alimentos que circulam pela região e chegam à mesa brasileira.

O horizonte é 2031. Nos próximos 12 meses, o sinal a observar é se o país anuncia planos nacionais ou projetos de cooperação vinculados às metas regionais.

Conclusão

A estratégia da OPAS não traz uma tecnologia nova nem uma proibição inédita. Traz algo mais difícil: a exigência de que os países saibam o que está acontecendo com seus alimentos e com sua população antes que o problema vire notícia. Isso marca a transição de sistemas que reagem a surtos para sistemas que antecipam riscos. Cada notificação feita por um serviço de saúde, cada amostra analisada num laboratório e cada registro de inspeção bem preenchido é uma peça desse sistema. Para o Brasil, que exporta alimentos para mais de uma centena de mercados e alimenta mais de 200 milhões de pessoas, essa é uma agenda de saúde pública e de soberania técnica. A notícia chama atenção. A educação sanitária transforma essa atenção em proteção.

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